olha a foto!

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segunda-feira, 6 de maio de 2013

O que não ouvimos e é tão importante basta que prestemos um pouco de atenção

A vida na Terra. e especialmente a NOSSA vida na terra ocorre num espaço vertical de uns 15 quilômetros acima da superfície e uns 30 quilômetros abaixo da superfície. A VIDA na Terra acontece não na Terra toda. Ocorre numa região bem restrita, mas nós não nos damos muito conta disto.

Nesta Terra imensa nós só podemos viver porque respiramos o ar da atmosfera que deixa de ser respirável a uns 10 mil metros de altitude. Os escaladores do Everest que não conseguiram chegar ao topo deixaram uma trilha de 150 mortos no caminho ao longo dos últimos 50 anos.

Na Zona da Morte antes de chegar aos 8 mil metros as pessoas morrem e possivelmente seus corpos nunca serão resgatados. Os riscos são muito grandes e todos sabiam do que lhes podia ocorrer ao escalar naquelas altitudes.

Se olharmos um globo terrestre destes de colocar na mesa os 10 quilômetros da superfície até o espaço da morte por falta de oxigênio equivalem ao verniz aplicado pelo fabricante do papel em que o globo foi impresso antes de ser colado na esfera de plástico que nos permite saber como é a Terra simplesmente fazendo-o girar de um lado para outro.

As nuvens ficam espalhadas abaixo dos 10 mil metros e podem ser vistas - quando você usa o Google Earth com fotografias para saber como é qualquer lugar.

Normalmente os lugares mais procurados do mundo são registrados sem as nuvens, mas se você se dedicar a uma viagem de exploração vai ver nuvens aqui e ali.

ACIMA DA SUPERFÍCIE DA TERRA TUDO É MUITO SIMPLES E PODE SER VISTO A QUALQUER HORA.NO COMPUTADOR DOMÉSTICO.

MAS, O QUE ACONTECE ABAIXO DE NOSSOS PÉS?

Não há criança que não tenha  perguntado a seus pais, aos adultos, o que aconteceria se ele cavasse um buraco no chão sem parar.

A resposta que todos ouvimos no Brasil é que iríamos parar no Japão nossas antípodas do outro lado da Terra.

Crianças que sabiam disto e davam as respostas às crianças que não sabiam eram vistas como muito espertas. Se cavássemos muito iríamos parar no Japão, debaixo dos pés de um japonês.

Porque não cavávamos então? Era a pergunta seguinte. A resposta aceita era que era muito longe eera um problema ainda não resolvido pela engenharia que conhecíamos.

Júlio Verne escreveu "Viagem ao Centro da Terra"
Mas, no seu livro não havia uma viagem ao centro da Terra. Toda a viagem da Islândia à Sicília foi feita ligeiramente abaixo da superfície, como vimos nos filmes feitos sobre o livro. E Júlio Verne, o seu livro e os filmes só colaboraram para nos confundirmos mais sobre esta questão do que existe debaixo de nossos pés. Em Inhotim, Brumadinho, Minas Gerais no Museu-Espaço-Parque criado pelo gênio mineiro Bernardo Paes os visitantes ficam chocados quando visitam o posto de escuta do centro da Terra montado no topo de uma pequena colina. Sob a cobertura de um pequeno pavilhão comparativamente a outros 15 dom parque há um furo com 200 metros de profundidade onde foram introduzidos microfones de alta-sensibilidade que captam os sons da Terra. Quem tenha feito uma ultra sonografia e ouve os sons emitidos por seus órgãos internos dá graças a Deus por aquela barulheira ficar restrita dentro de nós. O coração emite mais ruídos do que uma locomotiva a vapor a cada batimento cardíaco, nos garante a vida, mas seria muito chato ouvir aquilo o tempo todo e pior ainda, se ouvíssemos os ruídos internos de todos à nossa volta. Em Inhotim se ouve o tempo todo os ruídos internos da Terra. Estes ruídos não são originários no fundo do poço de 200 metros. Os sons são originados um pouco abaixo a no máximo uns 20 quilômetros da superfície. Veja a ilustração coletada nos arquivos totais do Google. Se nós cavarmos um poço não de 200 metros, mas de 20 000 metros nós vamos parar num mar de lavas vulcânicas que não param se movimentar e de emitir os ruídos que a alta tecnologia do pavilhão de Inhotim nos faz ouvir com o som mais puro. O mais assustador é que se fizermos um buraco com 200 metros de profundidade em qualquer lugar - na praia de Copacabana por exemplo - vamos ouvir se colocarmos os microfones de alta-sensibilidade no fundo - os mesmos sons incontroláveis da Terra. Sob os nossos pés estão as placas terrestres se movimentando sobre um mar de lava - magma - com temperaturas de milhares de graus que vemos apenas em grandes irrupções vulcânicas aqui e ali. E, segundo os pesquisadores, não existe impossibilidade de uma erupção destas ocorrer em qualquer lugar. SE VOCÊ PENSA QUE É DONO DA TERRA ESTÁ MUITO ENGANADO OU MUITO ENGANADA - NÓS É QUE SOMOS FILHOS DA TERRA NUMA DEPENDÊNCIA MUITO SÚTIL DO AR QUE RESPIRAMOS E DO SOLO EM QUE PISAMOS E BUSCAMOS O QUE NOS ALIMENTA.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O que não vi na Sicília...



Estava quase chovendo,mas o céu estava totalmente encoberto. Subir de carro para um local afastado da cratera não teria muita graça .
Imagino que tenha assistido esta erupção de 2003. É a própria ilustração do É FOGO!!!



Nem Siracusa nem o Etna, devido ao mau tempo. Foi uma grande perda, mas pensando bem - e como não é possível viajar no tempo - estas visitas tão desejadas vão ficar para a próxima viagem. Podem até justificá-las.

Mas, o que vimos e ainda mais o que deixamos de ver é exatamente do tamanho da Sicília e de sua história.

É atribuida a Richelieu uma frase que ele jamais disse, mas bem que poderia ter sido dita por ele:

"Dêem-me três frases escritas por alguém que vou achar motivos para levá-lo ao cadafalso".
Do mesmo modo a frase poderia ser no sentido positivo, trocando o cadafalso por paraíso, tudo dependendo da interpretação do que o autor disse.

A Sicília é como um livro repleto de dedeiras, orientando a sua viagem para o paraíso ou para paragens menos charmosas. Maa, na Sicília há tudo a ser visto.

Ponha o livro da Sicília diante de você e verifique na lombada as reentrâncias que permitem abri-lo na página marcada. Ali estão todos os conceitos desenvolvidos pelo homem ao longo da história.

Aqui estão observações em pílulas:


As grandes estradas da Sicília que cortam a ilha em todas as direções humilham os brasileiros e suas estradas por muitos motivos: são magnificamente construídas, passam numa sucessão de grandes viadutos, túneis quilométricos, asfalto sem oscilações e liso, limites de velocidade elevados ... sem que sejam necessários guardas ou policiais em toda a parte.

Mas, diante do tráfego de automóveis, caminhões e ônibus me peguntava se não teria havido alguma sacanagem para aprovar obras grandiosas como aquelas.

Não vi policiais, como não vejo as justificativas econômicas para construir aquelas estradas.

Poucos carros, poucos caminhões, pouca produção local se deslocando de um lado para o outro. Nada que exigisse a presença de policiais, o que seria muito civilizado. Só que não existem policiais por que não há muito a policiar...

As estradas - as grandes estradas, não as vicinais - estão preparadas para receber todo o turismo do mundo sem que esta demanda provoque engarrafamentos.

Como foi dito no primeiro texto sobre a Sicília, a ilha tem um status especial em relação à Itália. Estas estradas devem ter sido parte de um "pagamento" para manter os sicilianos em paz.

E eles estão relativamente pacificados, ou estavam relativamente pacificados até a nossa visita.

Como estou deixando este artigo para uma segunda prioridade voltei a escrevê-lo no dia 15 de fevereiro de 2011, depois da derrubada do Mubarack e da revolução democrática na Tunísia.

Ora, a Tunísia é a parte da África mais próxima da Europa, e a Europa no caso é a Sicília.

Fica a menos de 60 km da África (é mais próxima do que o Rio de Angra dos Reis) e agora passou a ser invadida por imigrantes ilegais em Lampedusa, nestes últimos dias.

A coisa tenderá a se tornar mais séria. Embora pareça incrível que a disponibilidade da democracia na Tunísia prenuncie para os que fogem de lá, falta de trabalho.

Hoje, e ainda por um bom tempo, a Sicília repleta de lições do passado vai permanecer por lá, sem maiores traumas. Mas, cada vez mais será invadida por povos africanos em busca de vida melhor.

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Agora outra observação não turística: há estatuetas de Mussolini feitas de lava do Etna disponíveis para os visitantes da ilha nas lojas de souvenires.

Não há estatuetas de Hitler disponíveis para visitantes da Alemanha ou da Áustria, onde esta questão de nazismo explícito passou a ser crime. Na Itália guardar lembranças do fascismo e de seu Duce, não é.

Porque há bustos de Mussolinis na Sicília ?

Por que há turistas que os compram é a resposta mais simples.

E os turistas que compram mais são exatamente os italianos, os italianos mais velhos que em alguns casos compram com os olhos cheios d`água.

Desde bem jovem descobri chocado que muitas vezes as boas obras de algumas pessoas eram produto de legítimos fdps sob qualquer critério de julgamento.

Wagner, por exemplo, foi um tremendo mau caráter, odioso em todos os seus gestos pessoais, mas genial em sua composições musicais. Ele é apenas um de uma galeria que feitas as contas teria assegurado camarote de luxo no inferno com espaço para suas obras de arte, vizinho de personagens que teriam o lugar por lá, reconhecidos por todos. Como o Mussolini, por exemplo.

Mas, como explicar a boa vontade e admiração por Mussolini hoje 65 anos após ser ele executado por uma turba enfurecida quando ficou clara a derrota na Guerra?

Mussolini assumiu o poder como fascista na Itália em 1922, muito antes de Hitler se tornar fuhrer na Alemanha. E foi o seu grande inspirador de gestos e de suas decisões a começar pelas saudações à moda romana , com as mãos esricadas, os calcanhares sendo batidos, enquanto a pessoa falava o "Heil Hitler" com toda a fé.

Para nós quase 100 anos após este surto de adoração aos chefes poderosos nos soa ridícula e impensável: imagina fazer juramentos por Hitler ou por Mussolini?

Imagine no passado mais distante ser oficial dizermos : Salve Getúlio!, ou depois em anos mais duros : Salve Médici!, ou Salve Figueredo!

Todo mundo iria morrer de rir, inclusive os próprios diante de tanta babaquice.

A coisa mais próxima disto perto de nósw ocorreu na Argentina depois da morte e subsequente desaparecimento do corpo embalsamado de Eva Peron.

A multidão reunida na plaza de mayo em Buenos Aires tocada por estes episódios de caça ao corpo embalsamado a sussurar "Se siente, se siente. Evita sta presente!!!!"

Evita já havia morrido há um bom tempo e o sussuro abrangente referia-se ao espírito da mulher do ex-presidente Peron, alguém que chegou perto deste culto semi-divino aos líderes do estilo de Hitler e Mussolini.

Agora, a pergunta que precisa ser feita: O que os italianos tanto devem a Mussolini a ponto de comprarem estatuetas com o seu busto?

O que ele teria feito que se tornou tão importante para as suas vidas?

Teria sido este benefício tão bom que tenha se sobreposto às suas ações pessoais erradas(um filme recente esclareceu de vez o seu mau caráter pessoal - e mais as bobagens dele que levaram a Itália a ser tão fragorosamente derrotada na Segunda Guerra Mundial?

Deixemos os italianos que não conhecemos tão bem e voltemos a nós, os brasileiros.

Todos os brasileiros com planos de aposentadoria, com férias anuais asseguradas, com direito a indenizações quando demitidos sem justa causa e gostam disto bem que podiam adquirir os bustos de Mussolini se soubessem que devem estas vantagens a ideias de Mussolini e dos fascistas implantadas aqui por Getúlio Vargas.

A carta del lavoro italiana instituida por Mussolini não foi apenas uma legislação criada pelos fascistas e copiada pelos brasileiros. A carta del lavoro foi o documento máximo do fascismo e da legislação do país.

E foi a inspiração de toda a legislação trabalhista brasileira, reunindo em seguida na Consolidação das Leis do Trabalho em 1942, num só documento as "conquistas" dos trabalhadores brasileiros que asseguraram ao Getúlio o título de pai dos pobres.

Getúlio quando fazia os seus discursos começava com "Trabalhadores do Brasil! Brasileiros!"

A carta del lavoro do Mussolini é a obra de referência do fascismo, a sua Bíblia, como Mein Kamp de Hitler tornou-se na obra de referência do nazismo.

Mussolini e os seus fascistas dão de 10 a 0 em Hitler e seus nazistas.Pois é muito mais civilizado construir uma estrutura de poder em torno do respeito aos trabalhadores do que em torno de uma busca de valores raciais por parte de um povo ariano, negro, amarelo ou o que seja.

Os mais velhos italianos ainda devem sentir-se seguros devido à legislação do Mussolini. E só vim a me dar conta disto quando descxonfiei dos bustos de Mussolini na lojas de souvenires da Sicília...

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Da estranha admiração pelas múmias recentes. Como já disse em outra parte do texto fizemos de Palermo a nossa mais importante base para de lá sairmos para passar por locais notáveis na Sicília. Também comentei sobre o trânsito caótico na capital siciliana e devido a isto resolvemos deixar o carro alugado de lado e percorrermos num táxi os principais pontos turísticos de Palermo, sem nos preocupar em achar estacionamentos e melhores caminhos para até lá chegar.

Esta é uma boa ocasião para surpresas.

Há em Palermo um surpreendente museu de múmias. Nada de múmias egípcias, mas de múmias sicilianas que começaram a ser coletadas com um frade há 400 anos e chegam até uma menina (quase viva com a sua roupinha de menina ) nos últimos anos do século XIX.

Todas as múmias sicilianas estão vestidas com as suas roupas normais.

Não há aquelas ataduras associadas a múmias egípcias que de vez em quando sãem andando em filmes de terror.

No entanto, filme de terrorno museu é ao vivo, onde para nossa surpresa e choque encontramos centenas de múmias - que é apenas um nome para a sucessão de cadáveres mais ou menos bem conservados nas galerias infinitas das catacumbas dos fransiscanos.

Quando falo da nossa experîência todo mundo diz que já sabia das catacumbas, que até no Fantástico já fizeram reportagem sobre o assunto.

Para nós, levados para lá de táxi, esperávamos galerias com catacumbas fechadas e inscrições sobre os mortos e não a recepção pelos próprios mortos...ao vivo!

O que mais impressiona porém, não são os mortos de plantão: são as roupas dos mortos que se fossem lavadas e passadas poderiam ser usadas pelos sicilianos do presente.

O motivo da preservação das roupas é o motivo maior da preservação dos mortos. O ar seco, a temperatura, a ausência de luz tudo conspira em favor desta permanência infinita dos sicilianos em suas catacumbas. Nem mesmo os terremotos que destroem regularmente os prédios não afetam os mortos vestidos.

O cemitério deles é que mudou de lugar no início do século XX para um prédio mais confortável, se é que conforto possa ser associado a seu bem estar físico.

A menos que você seja chegado ou chegada a programas góticos, prefira não ir. Mas, se for, vai se arrepender do triste destino que a sua família tem dado aos que já partiram... que poderiam ficar em algum lugar também mais confortável assombrando os vivos.

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O problema que é viver do passado e ter o passado a cada momento diante de seus olhos.














quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A Sicilía é talvez a ilha mais fascinante do mundo. Mas, é difícil decidir (1)






No Marketing surgido antes mesmo do marketing existir formalmente há slogans notáveis relacionados a lugares que se tornaram marcas registradas destas cidades.

Dentre eles o "Rio, Cidade Maravilhosa" , o VIR'NAPULE E PÒ MUOR, em napolitano mesmo, que quer dizer "Ver Nápoles e depois morrer", que também foi copiado por Roma, que usa a mesma lógica para dizer que é preciso ver Roma e depois morrer.

Durante um dia em casa vendo o canal Nat Geo qualquer pessoa , na maior boa fé, será capaz de dizer a mesma coisa em relação a uma centena de lugares em todas as partes do mundo. A terra é de fato muito bonita.

Mas, beleza não é tudo.

A Sicília está neste caso. A Sicília vai muito além da beleza que você vê por toda a parte. A beleza da Sicília vem em pelo menos quatro dimensões e se você não tiver os óculos para perceber esta quarta dimensão a do tempo vai perder cenas muito importantes.

Isto explica por que demorei tanto para escrever sobre uma viagem de apenas 7 dias.

Se eu fizer o que estou pensando em fazer nem sei se vou conseguir escrever a história toda que realmente interessa...

Foram 7 dias apenas , os 7 dias mais inspiradores em qualquer outra viagem de toda a minha vida. Não é exagero. Claro que ficou um gostinho de quero mais.

Minha expectativa antes de chegar era a de visitar aquela ilha embaixo da bota da Itália para ver ao vivo suas belezas antigas, herança da ocupação pelos gregos, magnificamente conservadas; ver o Etna, o vulcão mais ativo da Europa, pois tem sempre lava fervente em sua cratera e escorrendo montanha abaixo; visitar Taormina, imperdível segundo todos os visitantes amigos, e rodar de carro por cenários notáveis em suas várias cidades.

Também queria chegar a Siracusa para sentir a atmosfera do local onde viveu Arquimedes um dos maiores gênios da humanidade de todos os tempos. Naquela cidade ele viveu, trabalhou, criou, escreveu e morreu. Arquimedes era grego, nascido na cidade de Siracusa, que por volta dos anos 200 aC pertencia à Magna Grécia.

Arquimedes, ficou famoso a partir do grito de "Eureka" quando teria descoberto num banho de banheira que os corpos deslocam exatamente o seu volume em água quando mergulhados nela. Arquimedes, conforme relatos de historiadores cascateiros (que viveram 200 anos depois da morte de Arquimedes) teria saido de sua banheira, nu, correndo pelas ruas.

É realmente uma lição da História. Um cara que foi o primeiro grande cientista, matemático, pensador que criou as bases do cálculo infinitessimal tornar-se lembrado por uma historinha mentirosa, mas gostosa de ser repetida.

Um filósofo correndo nu pelas ruas de Siracusa, ao gritos de "Eureka" que queria dizer "Eu descobri".

A Arquimedes foi também falsamente atribuída a primeira arma que concentrava raios de luz ( do sol no caso dele) por um conjunto de espelhos apontados num alvo.

Com estes espelhos Arquimedes teria incendiado navios inimigos que tentavam atacar Siracusa. O que tem tudo para ter sido mais um chute na sua biografia que não precisaria de nenhuma destas bobagens para valorizá-lo.

Arquimedes tinha um grande problema: na sua época não deviam existir nem 100 matemáticos capazes de entender os seus trabalhos.

A maneira de "publicar" seus trabalhos era enviá-los como cartas para correspondentes no mundo mediterrânico. Grande parte destas cartas se perdeu, mas o que delas restou e foi publicado como "Codex Arquimedes" é suficiente para fazer da Sicília e de Siracusa o ponto maior do mapa da ciência do mundo antigo.

Arquimedes à beira do mar, e fazendo desenhos nas areias da praia, pensava em formas, proporções, linhas, e suas relações o tempo todo, divertindo-se com o que fazia e dentre estas "invenções" está o Stomachion, reproduzido acima como um quebra cabeças.

Só que, concebido por um gênio matemático e não por uma pessoa que simplesmente usasse uma tesoura para separar as partes de uma imagem para desafiar os outros para remontá-la, tudo no Stomachion obedecia a rigorosas fórmulas relacionado linhas e proporções.

Olhe para o Stomachion de Arquimedes, reproduza-o e saiba que há mais de 17 mil maneiras de acomodar estes triângulos para formar um quadrado.

Conseguir montar um só quadrado é dificílimo, imagine que depois de montar um - e fotografá-lo para provar que foi capaz - há mais umas 17 mil maneiras de rearrumar as peças para formar outros quadrados.

Minha curiosidade em relação ao Arquimedes é saber por quê uma pessoa usa o seu tempo para criar tal "game"?

Do lado prático da vida Arquimedes também inventou o parafuso de Arquimedes: uma peça em forma de parafuso que uma vez submerso num poço e girado sobre o seu eixo, fazia a água subir até em cima pois as voltas do parafuso eram côncavas.

Genial, pois não precisava de válvulas, precisava apenas de uma força para girar o parafuso, e fazer a água subir.

Queria conhecer o lugar do mundo onde uma pessoa deixada em sossego 200 anos antes de Cristo podia imaginar o que ele imaginou.

O mais prazeroso em viagens é ser agradavelmente surprendido por observações ou informações obtidas no local, ampliadas depois com algumas pesquisas mais simples.

O que a Sicília é exatamente ?

Em primeiro lugar a Sicília não é bem da Itália, como Arquimedes já provava 200 antes da era cristã...

Na wikepedia você vai ver que "A Sicília é uma região autônoma com estatuto especial da Itália meridional com 25 710 km² e 5,1 milhões de habitantes, cuja capital é Palermo. Tem bandeira própria - diferente da italiana - e é completamente circundada pelo Mar Mediterrâneo. É a maior ilha daquele mar em extensão e população."

A Sicília tem mais ou menos dois terços da área do estado do Rio e tem um cenário que propiciou toda a história fascinante que lá vem ocorrendo há milênios. O Etna garante que a Sicília ainda está "em construção". Como uma gigantesca betoneira em funcionamento contínuo há milhões de anos, o Etna fica despejando material de construção a sua volta.

Vai que o ativo operador da betoneira de lava cisme e decida mandar a ilha para o espaço?

Não há o que impeça uma coisa destas acontecer. O Krakatoua, na Indonésia no século XIX, antes de explodir a ilha e seus arredores, era um vulcão muito mais comportado do que o Etna.De repente explodiu fazendo a terra passar pelo menos por dois anos de céus enevoados e invernos mais rigorosos.

As pessoas que formaram a população da Sicília

O "homo sapiens", a espécie de bichos que somos, surgiu na África, mais ou menos onde hoje é a Tanzânia há uns 200 mil anos. Nossos antepassados não tiveram muita pressa em sair de lá. Mas foram saindo, rumo ao Norte, e há uns 40 mil anos, chegaram às margens do Mediterrâneo, no norte da África.

Sem que isto possa ser considerada uma ofensa a nossos ancestrais , não parece que eles tenham sido especialmente dotados da capacidade de construirem barcos, e mais importante ainda, de serem capazes de navegar neles em busca de novas terras entrando pelo mar adentro, longe das praias onde embarcaram.

Imagine um bando de "homo sapíens" numa beira de praia africana se perguntando o que haveria depois daquela água toda.E além dela.

Tiveram muito tempo para se indagarem sobre o que haveria depois do mar em frente, pois os primeiros sinais de visitas deles à Sicília foram há 12 mil anos. Teriam levado assim 30 mil anos ou umas 1500 gerações (na base de cinco por século) para decidirem enfrentar o mar e chegarem (talvez) a novas costas para explorar.

A nova costa mais próxima da África era a Sicília.

Depois deles (que deixaram lá os seus vestígios) vieram todos os povos do Mediterrâneo que construiram barcos, uma condição essencial e indiscutível para chegar a qualquer ilha.

Para ficar por lá, usufruindo o bom clima, as boas terras, as novas riquezas era essencial ter mais do que embarcações adequadas para enfrentar o Mediterrâneo, um marzinho mixuruca para quem viva no Brasil que tem em nossa costa o Oceano Atlântico e não um pequeno mar enfiado entre continentes.

Só que o Mediterrâneo é um marzinho bem enfezado. É um mar raso, que recebe ventos violentos do sul e do norte e embora sua maré não chegue a um metro de variação entre a alta e a vazante, revelou-se um paraíso para arqueólogos que sempre irão encontrar naufrágios de barcos de todas as épocas em baixas profundidades prontos para revelar as riquezas por eles transportadas nos últimos 3 mil anos pelo menos.

Além dos barcos terem de ser bem construídos tinham também de ser bem armados. Pois todos os povos navegantes tinham olho grande sobre as riquezas alheias.

Os navios tinham de ser bem armados, os portos bem defendidos, as vilas bem protegidas e todos estarem prontos para lutarem (matar ou morrer) nas próximas guerras ou invasões cuja repetição era tão segura quanto a sucessão das estações dos anos.

E a Sicília por todas as suas qualidades como terra produtiva, como bom local para viver com águas suficientes para matar a sede de gente, bichos e vegetais era boa demais para ficar em sossego.

Quem tivesse navios e soldados treinados jamais poderia deixar a Sicília de lado, pois não mereceria o respeito de outros povos.

Numa super-simplificação, a Sicília se tornou na resultante de todas estas lutas milenares. E o seu povo - que é a parte que importa num país - representa muito bem esta constante mutação de ocupantes. Nos seus rostos se você prestar atenção, verá o desfile destes invasores em seus gestos e atitudes. Estão lá os fenícios, gregos, romanos, árabes como registros seguros do passado de seus pais.

Conto tudo isto para deixar bem claro que qualquer pessoa na Sicília, seja ela o varredor de uma rua de vila no topo de uma serra, seja o deputado na assembléia em Palermo num ambiente renascentista, tem suas origens cravadas em milênios de história que só se tornou descontinuada quando os sicilianos imigraram para a América ou para o Brasil e aqui se casaram - como todos os imigrantes tendem a fazer - com gente de outras origens.

No Brasil há a integração de sicilianos e filhos de sicilianos com japoneses e filhos de japoneses, e assim por diante.

Ninguém hoje fica nas ruas sicilianas se gabando de sua história: a única forma desta história aparecer é através de sua língua, diferente do italiano e ainda mais diferente daquilo que nós no Brasil achamos que seja o italiano , amplamente difundido em novelas de televisão.

Sua população de 5 milhões de habitantes recebe pelo menos 1 milhão de visitantes todos os anos, especialmente de gente vinda da Itália. Basta para eles atravessar numa barca os três quilômetros que separam Messina no continente, onde alguns falam siciliano, mas onde se fala também os outros 23 dialetos italianos.

Dentre estes dialetos há outras línguas como o francês, no vale d'Aosta na fronteira com a Suiça, o albanês, o sérvio e uma porção de outros que deixaram de ser falados intensamente após a segunda guerra mundial. O latim, falado no Vaticano, não entra nesta conta...embora tenha sido a origem de todos os dialetos.

Gente que falava em dialeto no inicio do século passado normalmente não sabia escrever em língua alguma.

O povo era em geral iletrado, e mais iletrados ainda os que não falavam italiano.

Portanto falar em dialeto denunciava o analfabeto, quando isto deixava de ser aceito na sociedade.

Os dialetos no entanto continuam vivos na península e mais ainda na Sicília que faz questão de nos lembrar que não são italianos. E sim sicilianos.

Os sicilianos entendiam o que eu estava falando como mnais uma espécie de italiano, ou do que eu pensavam que era italiano. Pois eles já estão acostumados com gente de fora falando coisas numa língua italianada. O problema estava em eu entender o que eles tinham a dizer quando respondiam o que lhes era perguntado, especialmente nos pequenos vilarejos nas montanhas...

Na Sicília em nossos 7 dias tivemos dois "quartéis generais" para ficar em sintonia com os seus invasores históricos.

Lembre do Patton, que ao desambarcar na Sicilia com os seus tanques na Segunda Guerra Mundial, (no filme pelo menos) ficava lembrando das batalhas históricas em Siracusa, comparando-se com outros generais que haviam passado por lá.

Nós, modestamente, tratamos de ocupar as áreas que conseguimos "atacar" com nosso carro alugado, uma Mercedes 220, diesel com um GPS genial que infelizmente só falava alemão, e resistiu bravamente a nossos esforços de torná-lo mais fácil de ser compreendido.

Mas, em matéria de mapas , aquela telona de tv aberta no painel assim que ligávamos o carro seria o sonho dourado do Patton pois teria mostrado para ele mapas precisos de todas as estradas, estradinhas, riachos, rios e montanhas da ilha.

Não vou falar dos lugares turísticos maravilhosos que também estão disponíveis no Google ou em qualquer bom guia turístico da Sicília. Seriam precisos muitos livros para cada cidade visitada.

Palermo, escolhida como nosso quartel general nº 1, é grande, tem um tráfego louco onde a preferência é assegurada para quem entrar no cruzamento com mais "atitude" como diz o pessoal da moda.

Quem tenha mais atitude e não esteja enfrentando um caminhão que pode não ter atitude mas tem muito mais peso, se dará bem. Se não tiver "atitude" não vai cruzar as ruas onde não haja sinais.

Mas para fazer isto é preciso sintonizar-se com a alma siciliana.

Coisa tornada mais fácil para nós, pois a placa do carro alugado era de Palermo e não de outro país, que certamente não seria considerado ao tentar demonstrar "atitude" num cruzamento maluco...

O Alcides, revelando sua sabedoria e a prudência de um engenheiro havia comprado um GPS na Bélgica que nos acompanhou em toda a viagem, falando em francês e que ficava abaixo do espelho retrovisor interno, repetindo o mapa do GPS alemão, mas falando em francês informando exatamente onde ir, como ir, e quando estávamos chegando.

Fomos a Agrigento, atravessamos a ilha de lado a lado, chegamos ao topo de montanhas altas de que víamos vilarejos ainda mais altos em que poucas casas aparentemente estavam lá há séculos.

E de que não havíamos lido referências em qualquer publicação. Cruzando sobre as montanhas rumo a Taormina vimos numa curva da estradinha estreita uma grande vila cheia de casas completamente abandonada.

Fui catar a sua imagem com o zoom da Nikon e tivemos a prova do abandono.

Não havia sequer uma pessoa por lá, ninguém tomava conta daquilo.

As pessoas todas, como num conto do José J.Veiga todos tinham ido embora.

Não havia placas na estrada indicando a vila abandonada. Ela simplesmente existia lá no alto.

O que era ainda mais intrigante: muitas outras vilas como aquela estavam salpicadas sobre as montanhas que cruzamos. As mais baixas foram atravessadas por nós na estrada que percorríamos com a segurança do GPS e seus mapas.

Para mim estes vilarejos nas montanhas eram uma prova física de que para sobreviver numa ilha sempre atacada por inimigos externos era precisoo se defender num lugar de difícil acesso, de onde os sitiados podiam defender-se dos atacantes por um bom tempo.

O maior problema para mim era saber como eles conseguiam a água para sobreviver. Não foi sem motivos que Arquimedes inventou a bomba do parafuso que sendo girada retirava a água do fundo dos poços e a fazia subir nas voltas de um parafuso. Um troço genial que só teria sentido para gente que realmente precisava fazer a água subir para algum lugar, ou morrer de sede.

Olhando para os vilarejos imaginamos a quantidade de parafusos para manter aquela genter viva por séculos e séculos. Especialmente nos séculos em que a energia para girar o parafuso não vinha da eletricidade...

Explorar mais detalhadamente estes vilarejos vai ficar para a próxima viagem feita com mais tempo, juro.

A Sicília não é feita só de montanhas, nem de áreas vulcânicas em torno do fumegante Etna. Há muitos campos onde os sicilianos estão plantando vegetais naturais - sem agrotóxicos - de maior preço e muito apreciados no continente.

Foi numa incursão para fora das rodovias principais que deparamos com o casal que roubava azeitonas em pleno domingo.

Como nós sherlocks de araque desobrimos este crime? Elementar, meus caros.

O GPS permite enveredar por qualquer caminho pois os computadores e satélites podem nos tirar de lá.

Quando íamos para Agrigento decidimos sair da estrada principal e resolvemos explorar uma estradinha de terra que se estreitava a medida que avançávamos por ela.

Seria o lugar perfeito para não encontrar ninguém vivo. Ora, como já disse , a estradinha se estreitava e se tornava cada vez mais esburacada, embora se mostrasse capaz de nos levar , alguns quilômetros adiante , de volta para uma estrada principal.

De repente vemos um carro velho, esbandalhado parado um pouco adiante, numa plantação de oliveiras com duas pessoas do lado de fora com sacos de aninhagem nas mãos.

A vontade irresiastível de perguntar coisas a quem esteja na estrada não podia ser evitada por mim que tenho todos os motivos para jamais fazer isto.

Antes do GPS já preferia me guiar pelos mapas, depois do GPS então nem preciso de mapas. Gente, pelo simples fato de estar num lugar não entende de como fazer indicações.

Faça um teste na sua cidade, parando em qualquer esquina e peça informações. Na maioria das vezes a pessoa vai dizer que não sabe, e as que não querem parecer patetas vão mandar você para o lugar errado. Claro que há os maníacos por pedir informação em postos de gasolina e eu pergunto porque cargas d'água frentistas que moram quase sempre muito longe dali vão saber dos detalhes dos arredores?

Logo, mesmo parecendo muito teimoso, fujo das informações dos transeuntes.

Voltemos para a nossa estradinha, nosso caminho carroçável da Sicília, e ao casal idoso que no meio de um deserto - pois não havia casa, nem gente, nem outras estradinhas em volta - deicava-se em plena manhã de domingo à colheita de azeitonas.

Claro, que eram eles os "donos" da plantação. Claro também, que não eram nem funcionários do dono. Eram ladrões dominicais, enfiados com seu carrinho num caminho por onde ninguém poderia pensar em trafegar.

Eis que um movimento distante se tangibiliza num automóvel, inadequado para andar naquele tipo de estrada, com quatro pessoas dentro, que marcham com segurança em sua direção.

A primeira providência deles, entre eles, deve ter sido um fica quieta e finge que estas pessoas não existem. É capaz delas sumirem.

Quase sumíamos, passando bem devagar pelo casal, e seguindo em frente.

Mas paramos diante deles, para que lhes fosse feita a pergunta: Por favor, estamos na estrada certa para Agrigento?

Claro que estávamos e o bom da pergunta foi de ficarmos diante de um casal siciliano, com toda aquela herança genética, dedicado a colher azeitonas para fazer o seu próprio azeite em casa. Coisa que deviam fazer há décadas, na segurança dos domingos, a beira de caminhos por onde não passa ninguém.

Deui vontade de pedir umas azeitonas tiradas do pé para sentir o gosto da fruta milenar. Mas, as mãos dos dois estavam tão sujas que seria difícil levar as azeitonas diretamente para a boca.

Resultado: estivemos prestes a saborear azeitonas sicilianas tiradas na hora de oliveiras centenários e não fizemos isto por puro preconceito contra a sujeira incrustada nas mãos do casal...

Interrompo a saga siciliana aqui e a retomo no capítulo 2 , que na ordem dos blogs vai aparecer ANTES deste.



















quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Em Kortrijk pude descobri uma nova chave para entender como a Bélgica na verdade são duas...



Aqui estamos os quatro em nosso primeiro encontro na Bélgica. O carro estava alugado no estacionamento e de lá iríamos sair em 15 minutos para Kortrijk


A primeira cidade em que ficamos na Bélgica se chama Kortrijk. Nem tente pronunciar este nome, nem qualquer outro nome em flamengo, ou holandês.

O Gouda, dos queijos, tem uma pronúncia local com um som rascante vindo da garganta mais parecido Rrrouada. Algo impensável para gente que fala português... Imagine Kortrijk.

Kortrijk é o nome de uma cidade de Flandres em flamengo – o holandês falado no país – Em francês (a outra língua oficial da Bélgica)seu nome é Courtrai. Mas, não existe uma única placa com este nome em francês em toda a cidade.

Estranho, não é? Uma cidade que tem dois nomes, em duas línguas oficiais do país, e não exibe nas suas ruas, ou nas estradas que levam a ela, uma única placa em que apareçam os dois nomes...

Isto poderia ser visto como uma simples curiosidade, coisa de europeus, mas este fato me levou a crer que por trás dele poderia estar uma parte da explicação do grande mistério que a Bélgica representava para mim...

Um país em que os selos colecionados na infância tinham escrito Belgie-Belgique. Até nos selos eles faziam questão de afirmarem sua dualidade como país.

Por isto, logo ao chegar ao Hotel Belfort, na praça central de Kortrijk, pensei mais nas duas Bélgicas.

Embora se pense na Bélgica como um só país, na verdade a Bélgica são dois países separados por claras fronteiras internas. E as duas Bélgicas demonstram não se curtirem muito: elas têm grandes diferenças entre as etnias que se tornam ainda mais acentuadas quando os números da economia são examinados.

O Brasil também não é um país só. Basta prestar atenção. Nada pode ser mais diferente que um município da Amazônia e outro numa colônia de origem italiana no Rio Grande do Sul.

Se você quiser descobrir países diferentes no Brasil vai achar muitos outros exemplos.

Só que na Bélgica estes dois países foram definidos no século XIX como a solução desejada por todos. Portanto, mais de 100 anos depois, deveria funcionar muito bem – como funciona na Suíça, ali ao lado.

Mas ao visitar a Bélgica se percebe que o entendimento dos belgas de fala francesa com os belgas de fala flamenga só não incomoda mais a eles por que um lado não liga muito para outro, exceto quando as questões se relacionam às finanças.

Chegamos à Bélgica de trem - TGV - na estação do Midi em Bruxelas (a única cidade que tem as duas Bélgicas reunidas numa só) depois de passarmos três dias em Paris.

Umas observações rápidas sobre Paris para depois voltar a falar de Kortrijk

Paris é uma cidade global. No ranking das mais visitadas publicado pela Folha
de São Paulo está a justificativa de você andar por ruas em que se falam todas as línguas do mundo.

O que espanta mais é que aparentemente aquela gente de fora, nós inclusive, não parecemos turistas típicos, como os que visitam a Disneyland. Parece que todos visitantes vão fazer alguma coisa lá. Poucos são os que vão apenas para passear, como no passado.

Nesta linha de raciocínio aposto que vai ter uma surpresa ao verificar que a cidade mais visitada do mundo é Londres.Paris com quase 10 milhões de visitantes por ano é a terceira, depois de Bancoc, a que fica em segundo lugar!

AS CIDADES MAIS VISITADAS NO MUNDO (número de visitantes em milhões de pessoas por ano) 1.

1. *Londres - 15, 640
2. *Bancoc - 10, 350
3. *Paris - 9, 700
4. Cingapura - 9, 502
5. *Hong Kong - 8, 139
6. *Nova York - 6, 219
7. Dubai - 6, 120
8. *Roma - 6, 033
9. Seul - 4, 920
10. *Barcelona - 4, 695
11. Dublin - 4, 469
12. Bahrein - 4, 418
13. Xangai - 4, 315
14. *Toronto - 4, 160
15. Kuala Lumpur - 4, 125
16. *Istambul - 3, 994
17. *Madri - 3, 921
18. *Amsterdã - 3, 901
19. Meca - 3, 800
20. Praga - 3, 702
21. Moscou - 3, 695
22. Pequim - 3, 593
23. *Viena - 3, 339
24. Taipé - 3, 280
25. São Petersburgo - 3, 200
26. Cancún - 3, 074
27. Macau - 3, 072
28. *Veneza - 2, 927
29. Varsóvia - 2, 925
30. *México - 2, 823
31. Los Angeles - 2, 513
32. Guangzhou - 2, 512
33. Benidorm - 2, 457
34. Berlim - 2, 309
35. *Rio de Janeiro - 2, 185

Marquei com um * as cidades que conheço e fica evidente que estou longe de ser um grande viajante internacional. Mas, presto muita atenção ao que vejo, pelo menos...

Olhando esta lista, percebemos que Seul é mais visitada do que Barcelona ou Madri.

Que Macau (deve ser pela atração do jogo em casinos) recebe mais gente do que Veneza, México, ou Los Angeles.

E que o Rio é a 35ª cidade turística do mundo. Coisa que nem imaginava. Nem se fala de São Paulo, nem de Buenos Aires neste ranking.

Quando chegamos a Paris em setembro de 2010 lembramos de nossa primeira visita à cidade em maio de 1968. Naquela ocasião o pau estava comendo nas ruas. O hotel em que ficamos, o Du Levant, ficava no miolo da confusão e a partir dele pudemos assistir a história acontecer, bastando sair para a rua.

Havia estudantes e policiais em conflito. Havia gás lacrimogêneo, passeatas, barricadas feitas com paralelepípedos e estudantes por todos os lados. Desta vez não foi um vigésimo daquilo.

Começamos a perceber que estava se armando nova confusão histórica ao constatarmos a ocupação crescente da cidade por ativistas da FO – Force Ouvriere.

Gente identificada por braçadeiras com o FO e ar zangado nas caras sérias para organizar passeatas desta vez contra a elevação da idade mínima para a aposentadoria para mais dois anos...

Não iam aceitar a proposta do Sarkozy, qualificado juntamente com a Carla Bruni com os piores adjetivos imagináveis. O problema é que as contas do país não vão fechar e nem com dois anos a mais de trabalho e contribuições os franceses vão encontrar a saída.

O notável no espírito dos franceses que inventaram o Liberté, égalité, fraternité é a sua disposição de protestar marchando em bloco. Em setembro de 2010, as senhoras e os senhores (muito mais do que os estudantes) - que em 1968 ainda deviam estar no jardim de infância - se preparavam seriamente para repetir nas mesmas ruas as passeatas de protesto (sem barricadas e sem confrontos com os flics desta vez) que seus pais haviam feito.

Os três dias em Paris se tornaram numa oportunidade de vivermos este novo momento histórico francês ao vivo, se bem que desconfiássemos que toda aquela agitação de nada iria adiantar, como depois de nossa volta se confirmou.

A solução das contas internas na França e no resto da Europa não tem como fugir das antigas operações aritméticas. Dois mais dois serão sempre quatro, e não adianta dizer que o presidente é uma besta e sua esposa uma “vadia” na tradução mais gentil que posso fazer dos adjetivos que ouvi

Esta é a vantagem de uma visita rápida: chegar a soluções simplistas para complexos problemas

Por isto convido a todos para voltarmos à Bélgica.
.


Fomos para Bélgica no trem de alta velocidade em que embarcamos por volta das 11 da manhã na Gare Du Nort em Paris para chegarmos a Bruxelas na hora do almoço pouco mais de uma hora depois.

Como o TGV está nos planos do Brasil prestei atenção a alguns detalhes que tendemos a deixar de lado quando não temos um interesse maior sobre ele.

A Gare Du Nort, em Paris, se parece com qualquer charmosa gare antiga do mundo. De um lado há guichês para a compra de bilhetes, e até uma atenção maior na área de venda dos bilhetes do TGV para Bruxelas.

Do outro lado estão as plataformas de onde saem os trens.

Mas, depois de comprar as passagens não havia carregadores à vista para levar as nossas malas até o vagão.

O trem já estava encostado na plataforma. E nós tivemos de achar o nosso vagão rebocando as nossas malas com rodinhas, sem maiores dificuldades, pois é para isto que as malas têm rodinhas. Sem maiores dificuldades também porque não estava chovendo. Se estivesse, como o trem se estendia para bem além da cobertura da estação, teríamos de nos virar com capas e guarda chuvas e mais as malas com rodinhas...

A aparente extravagância financeira de comprar dois bilhetes de primeira classe (mais ou menos 100 euros a mais) , se deveu a um preconceito meu em relação a viajar perto de europeus que fogem dos banhos e à lavagem regular de suas roupas.

No vagão da primeira classe os assentos de luxo são muito mais espaçosos: têm dois lugares de um lado do corredor e um isolado no outro lado. No TGV que tomamos há alguns anos para Londres, as poltronas tinham três assentos e uma terceira pessoa podia juntar-se a nós.

Se a diferença de preço fosse maior estava disposto a encarar o risco de um vizinho (ou vizinha) com um CC assassino, mas ao avaliar o custo benefício de uma hora com segurança de maus odores achei que o investimento de 100 euros valia a pena.

E o investimento se pagou!

Já sentados na nossa primeira classe, surgiu um cidadão que atacava os circunstantes a uma boa distância com a sua “guerra química” particular.

Graças ao bom Deus foi sentar-se bem longe de nossos assentos e de nosso olfato.

Ao escrever sobre isto tenho a certeza de estar fazendo o tipo de coisa politicamente incorreta.

Mas, não posso deixar o tema do CC de lado para que não perca a oportunidade de dar esta dica de viagem para os amigos e leitores preconceituosos como eu em relação a este aspecto da cultura européia, para dizer o mínimo.

Desde lá declaro reconhecer o direito de franceses, e europeus em geral, de achar estes cuidados para fugir ao CC o máximo da frescura podendo eles listar uma infinidade de coisas chocantes para eles no Brasil, muito mais importantes do que o mau cheiro das pessoas.

Nem vou fazer a nossa lista, pois há muita coisa, mas meu problema na viagem à Europa era fugir do CC deles por lá E este era um problema que pude tomar providências para evitar, gastando uns 100 euros a mais.

Também, bem instalado nesta nova viagem no TGV prestei atenção a um detalhe importante:

Não se percebe qualquer ruído nem qualquer vibração quando o trem se desloca. Nas emendas dos trilhos você não ouve aquele troc-troc, que sempre associamos a viagens de trem. Isto não existe no TGV.

A linha férrea é tão lisa como o melhor asfalto, e os trilhos aparentemente não têm juntas que eu, um ignorante em engenharia ferroviária, sempre achei essenciais para evitar que os trilhos dilatados pelo calor ao sol forte se soltassem e fizessem os trens descarrilarem quando a temperatura do dia mudasse...

Parece que estamos num elevador rápido que se desloca na horizontal. Talvez se houvesse a vibração do troc-troc a 400 quilômetros por hora os vagões se desmontassem.

O trem acelera suavemente e só nos cabe olhar pelas janelas e ver o cenário passar cada vez mais veloz como num filme mudo a cores e em três dimensões.

E o que vemos da janela de Paris a Bruxelas são cenários em que quase qualquer foto isolada poderia se tornar num cartão postal.

Pequenas cidades, com casas muito bem conservadas, ruas vazias e limpas, igrejas com torres antigas e seus antigos relógios (até o século XIX o relógio da igreja era a única hora disponível para a população) e mais, pequenas fábricas, fazendas com pequenas plantações, tudo pequeno com muito verde passando depressa pela janela.

A Bélgica é feita destes panoramas pequenos em todas as suas regiões: é um país quase plano, com uma infinidade de vilas e pequenas cidades cujas histórias militares assustadoras formam um contraste impressionante com o cenário bucólico visto no presente.

Ao chegarmos a Bruxelas nos encontramos com a Lúcia e o Alcides (que aparecem na foto de abertura deste blog em Kortrijk) e com eles fomos pegar o carro que alugamos do Brasil – um Citroen Picasso C4 diesel equipado com um GPS - que nos levou em menos de uma hora até Kotrijk.

Pode parecer coisa de gente idosa, mas com o GPS se torna impossível haver qualquer problema para saber onde entrar, quê estrada preferir, em quê placas acreditar mais.

O GPS mudou a forma de fazer turismo em automóveis da mesma forma que o GPS em barcos e veleiros permite a qualquer imbecil saber onde está em qualquer lugar dos mares, sem sextantes ou cronômetros.

No GPS do carro basta seguir o que a moça fala por trás da telinha e acreditar nela..

Ela e seus satélites conhecem cada viela onde quer que você se meta até os números das casas. Se você decide fugir ao que ela está dizendo não se preocupe. Ela faz todos os cálculos de novo, sem reclamar, quantas vezes for preciso.

Por que iniciar nossa viagem de férias conjunta por uma cidade de que até pouco tempo antes nunca tínhamos ouvido falar ?
E por que ir visitar a Bélgica?


As decisões não muito planejadas é que dão mais graça às viagens de recreio. Ao optar por estas “aventuras” você tem a certeza antecipada de que vai auferir prazeres insuspeitados.

Nós fomos para Kortrijk por que a Lúcia tem uma irmã fonoaudióloga e professora universitária, que num congresso internacional conheceu um professor belga da mesma especialidade. O relacionamento cresceu e o casal decidiu ter endereços em Kortrijk e no Brasil.

Kortrijk, para a nossa sorte, é melhor escolha para quem como o John é professor na universidade de Gent a 30 minutos de lá de carro.

A sua universidade fica mais perto do que a Barra da Tijuca fica do centro do Rio.


Ele mora numa casa construída no século XII ou XIII e nela encontra um sossego milenar para escrever seus trabalhos. A única perturbação vem dos sinos da igreja vizinha – parede com parede – nas horas previstas.

Mas gente que tem relógios carrilhões em casa se perturba da mesma forma e com muito menos charme do que com o carrilhão de uma igreja do século XII.


Kortrijk é também a melhor alternativa para quem queira visitar a Bélgica e fazer de lá a sua base para ir às outras cidades e entender melhor o como o país e vizinhança funcionam.


De Kortrijk tudo é perto. Cidades como Ostende, Bruges, Antuérpia, Amsterdã, na Holanda e Luxemburgo, tudo fica a distâncias equivalentes a se ir do Rio para a Serra ou para a região dos lagos por estradas impecáveis.

Viajar é mais gostoso quando podemos nos fazer de exploradores que tentam entender, sem maiores riscos, como vivem os “aborígenes”. Tentar descobrir como adquiriram os seus usos e costumes presentes (como serem os reis dos chocolates, serem os criadores dos waffles e serem a terra da Audrey Hepburn, não necessariamente nesta ordem...) .

Por isto, além do que se pode ver nas ruas, e em a Kortrijk foi assim, tornou-se muito mais instigante descobrir por que tudo aquilo foi parar ali. Em Kortrijk e na Bélgica, há muitos mistérios para decifrar.

Houve, por exemplo, uma “guerra das esporas de ouro”, em 1240, em que Kortrijk foi arrasada. E arrasado na idade média era arrasado mesmo. Não sobrava nada em pé. Nem casas nem gente, incluindo adultos, velhos e crianças.

Mas, bastam umas dezenas de anos - o que não é muito para uma cidade com mais de 1 000 - para que tudo o que existia voltar a estar lá de novo, sob nova administração.

Por que deixar tudo arrasado? Não é somente para demonstrar que se ganhou a batalha: é preciso arrasar para demonstrar a raiva. Uma raiva beirando o irracional, que de certa forma continua a existir ainda hoje. Dew gente que fala francês contra gente que fala flamengo.

A Bélgica é um país instalado numa região bem diferente de tudo ao que nós aqui estamos acostumados a ver.

Enquanto o Brasil tem morros com matas e árvores, montanhas escarpadas, pedrugos de granito como o Pão de Açúcar, grandes florestas fechadas, pantanais, terras agrícolas maiores do que países (tudo isto espalhado em áreas quase sempre habitadas, com gente nas ruas, crianças em profusão jogando bola) na Bélgica acontece exatamente o oposto.

Vendo de longe é divertido constatar que ao vivermos em meio a esta riqueza de cenários - que adoramos criticar - sentimos a sua falta quando nos deparamos com o oposto.

O estado do Rio é um pouco menor do que a Bélgica. As estradas belgas são um luxo, suas cidades são bem organizadas, limpas e bem sinalizadas. Não existe nada que se possa parecer caos urbano, nem mesmo uma pequena bagunça urbana... E também não existem favelas.

Até os pedintes (que existem aqui e ali ) usam ternos. A motivação deles é mais térmica do que referente à elegância. Mas, é bem diferente alguém pedir esmolas de terno, sem gravata é verdade, mas de terno e falando em flamengo...

A Bélgica, além destes detalhes, tem um rei, que não se chama como seria de esperar de “rei da Bélgica”, mas rei dos belgas. A explicação para esta sutileza é que pela constituição definida depois do país tornar-se independente dos Países Baixos, definiu que o rei reina sobre uma comunidade e não sobre um território onde a comunidade vive. As pessoas seriam assim mais importantes do que o solo. Ele é o rei das pessoas belgas e não o rei das terras em que a Bélgica foi instalada.

Coisa sutil paca. O tipo de conhecimento que leva você a filosofar sobre este negócio de ser rei, de pertencer a famílias com os mesmos sobrenomes que reinam sobre uma porção de países diferentes, casam com seus primos e primas, entram em guerra de quando em quando, e levam os seus países a guerras e mais guerras em que as fronteiras se expandem e se retraem depois de uma porção de gente ser sacrificada.

O primeiro rei dos belgas foi Leopoldo I em 1832, quando o país tornou-se independente. Depois dele veio o Leopoldo II que merecerá alguns parágrafos nada lisongeiros mais adiante neste texto.

Agora esqueça tudo o que leu sobre esta história tão bem engendrada sobre rei dos belgas: os príncipes belgas são reconhecidos e chamados de príncipes da Bélgica. Parece contraditório, não é? E invalida toda a história anterior, não é?

Em função destas coisas é que os belgas ganharam uma reputação de meio enrolados, de meio confusos e não sou eu, neste texto de observações sobre uma viagem que vou resolver este problema...

Para existir os belgas elaboraram um sistema administrativo combinando os interesses (conflitantes) de seus dois principais grupos lingüísticos – os de língua francesa e os que falam flamengo.

A família real garantiu a seus príncipes um lugar cativo no congresso. Basta ser príncipe para se qualificar como senador.

O desafio dos ministros é harmonizar os interesses de toda ordem dos belgas que falam flamengo (em Flandres) os dos belgas que falam francês, no Vaulois. Sem descontentar uns 40 mil que falam alemão...

Seria muito difícil uma organização assim funcionar sem atritos. E não funciona.

Embora a Suíça demonstre que isto tem sido possível, desde que o país não participe de guerras. Na Bélgica os belgas que falam flamengo ganham mais dinheiro e são administradores mais eficientes do que os que falam francês.

Para chegar ao que é hoje o país passou por grandes mudanças ao longo da história. A área em que ele está é a fronteira entre os europeus do norte (germânicos) e os europeus do sul (franceses e latinos) que se têm dedicado a guerrear entre si com renovado afinco sempre que achem (um lado ou o outro) que têm mais forças.

O território da Bélgica se fosse projetado como cenário para grandes batalhas teria saído melhor do que a encomenda. E uma encomenda que vem sendo testada ao longo de centenas de anos.

Mas, este lado soturno da história não é percebido pelo visitante de hoje. Quando fui presidente de uma agência de marketing direto multinacional aprendi numa reunião na Europa que havia um grande problema para criar malas diretas na Bélgica: cada carta ou folheto tinha de combinar criatividade e os aspectos legais tendo de usar duas línguas ao mesmo tempo.

O texto deveria ser apresentado obrigatoriamente em francês e em flamengo exigindo o dobro do espaço, pois se isto não fosse feito a agência ou o cliente seriam processados.

Caramba, um país pequeno deste jeito, e TUDO tinha de ser escrito em duas línguas?

Pronto, aí começava e terminava o meu conhecimento sobre as peculiaridades da Bélgica.

Nunca me vi obrigado a saber mais. Imaginava apenas que cumpridas estas regras tudo correria bem para eles que tinham uma pedra de roseta em cada envelope, permitindo saber como falavam e escreviam aquelas coisas em duas línguas.

O assunto tornou-se para mim uma boa conversation piece.

Mas quando você dá mais atenção a esta peculiaridade pode deduzir que o problema deve ser maior.

Se é preciso mesmo escrever em duas línguas é porque os belgas que falavam flamengo não entendiam francês e vice-versa. A providência de ter os textos nas duas línguas não era apenas uma providência política, mas uma necessidade para poder se fazer entendido.

E a briga entre as duas facções continua séria. O governo, enquanto estávamos lá, não conseguia chegar a acordos para formar um novo ministério, mas do lado de fora, no mundo, não se tomava conhecimento disto.

Para ganhar espaço nas páginas de noticiário internacional seria preciso um assunto mais sério. Precisa ter gente presa, gente levando pancada, gente morrendo. Esta conversa de montar um governo com belgas de fala francesa e belgas de fala holandesa na cabeça dos editores internacionais tem mais cara de problema local do que notícia para competir com uma guerra das Coréias, por exemplo.

Mas, isto tudo foi apenas um pano de fundo quase imperceptível da nossa viagem que foi muito prazerosa.

Percorrer a Bélgica de carro é fácil e seguro. Os pequenos cenários se sucedem como se os contra-regras de um teatro quisessem mostrar todo o estoque de cenários em menos de uma hora de espetáculo.

Cito sempre o tempo curto, pois, se você dirigir em alta velocidade em qualquer direção por mais de uma hora sairá quase sem perceber da Bélgica para a Alemanha, Holanda, Luxemburgo, França ou Suíça.

Na Bélgica tudo é perto de tudo. O país é praticamente plano. O seu ponto culminante fica a 600 e poucos metros de altitude na floresta das Ardenas; é mais baixo do que o Corcovado, no Rio de Janeiro.

Não foi sem motivo que o território belga se tornou no grande campo de batalha da Europa.

Todos os exércitos, desde a era da pedra lascada passando pelos soldados com uniformes coloridos marchando ao som de cornetas e tambores até chegar aos uniformes verde-oliva da primeira e da segunda guerras mundiais todos eles se mataram e morreram naqueles belos campos belgas.

A costa da Bélgica em frente ao Mar do Norte tem apenas 65 quilômetros, mais ou menos a extensão das costas do Piauí diante do Atlântico. Só que o Piauí tem mais ou menos 4 vezes a área da Bélgica.

Mas, a costa belga é considerada a mais bela da Europa diante do Oceano Atlântico do qual o Mar do Norte é uma parte.

A beleza do lugar onde se vive tem sempre uma grande influência na vida das pessoas.

Beleza na natureza sempre corresponde à mais beleza nas criações humanas existentes em cada lugar. E a Bélgica pequena, dividida, com uma população pequena tem atrações para visitantes de todos os gostos.

Os cenários que nós vemos com prazer das janelas de um carro rodando em velocidade foram vistos com uma atenção imensa pelos oficiais que tinham de lutar contra outros exércitos escondidos por trás de algumas árvores aqui e ali. Quem não prestasse atenção morria.

E morreram alguns milhares soldados na Bélgica ao longo da história. Não eram necessariamente belgas, mais europeus em geral.

Vou citar um nome: Ardenas.

No século XX, as Ardenas foram consideradas território pouco propício para manobras militares devido ao seu terreno mais acidentado e sua densidade florestal. Contudo, as Ardenas foram o percurso preferido pelos alemães quer na Primeira, quer na Segunda Guerra Mundial, para rapidamente atingir pontos mais fracos da defesa francesa.

As Ardenas foram palco de grandes batalhas como:

• Batalha das Ardenas - Primeira Guerra Mundial, (21-23 de agosto de 1914)
• Batalha de França - Segunda Guerra Mundial (10 de maio - 22 de junho de 1940)
• Batalha do Bulge - Segunda Guerra Mundial (16 de dezembro de 1944 - 30 de janeiro de 1945)

Até hoje são achadas nas Ardenas bombas que não explodiram e que são devidamente detonadas pelas autoridades de segurança na base de mais de 50 por ano.

Diante de tanta guerra podemos pensar por que o país não teria sido ocupado por um dos lados que tivesse mais poderio militar e acabasse de vez com este estado tão diferente.

Ora, a Bélgica só se tornou em um país devido à capacidade de negociação de seus dirigentes. Foram eles que inventaram, logo depois da Segunda Guerra Mundial, a Benelux.

Benelux é a organização econômica de onde nasceu o que seria mais tarde a União Européia.Compreende a Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo, sendo inicialmente uma área de livre comércio entre estes três países, e mais tarde, com a adição da Itália, Alemanha e França acabou por criar a Comunidade Econômica Européia (CEE).

Quem inventou a nova Europa foram os inventores da Benelux, o que já é um grande feito.

E mais uma prova de que não existem mágicas em geopolítica. Nada acontece por acaso.

Quando o país não tem força militar deve ter capacidade diplomática para negociar. E a Bélgica com suas contradições está aí para comprovar a afirmação jornalística feita neste parágrafo.

O Tratado de criação do Benelux (Union Économique Benelux) foi firmado em 3 de fevereiro de 1958 pela Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo, e entrou em vigor em 1º de novembro de 1960. O nome Benelux foi utilizado pela primeira vez neste tratado; é formado pelas iniciais dos nomes dos três países: BElgië, NEderland e LUXembourg.

A Benelux tinha como objetivos estimular o comércio e eliminar as barreiras alfandegárias.


E agora a nova importância de Bruxelas, independente das atribulações em satisfazer os belgas.

A organização era regida pelo denominado Parlamento da Benelux, fundado em 1955. O Parlamento era composto de 49 membros, sendo 21 da Bélgica, 21 dos Países Baixos e 7 de Luxemburgo. O tratado que estabeleceu oficialmente a Benelux garante também o direito de livre comércio e deslocamento de cidadãos entre os países-membros, dando-lhes total estímulo comercial.

Bruxelas, além de ser a sede da UE, também é reconhecida como a cidade-sede da Benelux.

A pequena Bélgica tornou-se mais importante quando passou a abrigar a capital da nova Europa.

O que de fato é uma reviravolta de 180º na história recente do país que visitávamos.

Além das informações no seminário de marketing sobre os textos das cartas serem obrigatoriamente em duas línguas eu guardava meio soterrada, propositalmente deixada de lado, outra informação sobre a Bélgica, ocorrida algumas décadas antes.

Diante da viagem prazerosa, do que vimos e aproveitamos na nossa rápida visita nem queria tocar no assunto, mas ao escrever sobre a capacidade de negociar dos belgas fui sendo lentamente levado a cometer um “sincericídio” em relação às pessoas que lá me receberam tão bem.

Minha outra referência na memória sobre a Bélgica - e sobre os belgas - se chamou Congo Belga.

Não vou contar aqui a história do Congo, mas vou usar fatos históricos lá ocorridos para dar uma luz sobre a capacidade dos seres humanos se superarem na tarefa de atuarem como demônios cuja existência num inferno imaginado seria considerada um absurdo pelo mais desvariado ficcionista.

Vou simplificar esta afirmação vou recorrer a uma metáfora:

Alguma vez você se perguntou como foi possível a Alemanha onde nasceram Bethoven, Bach, Goethe, Kant,(uma região que valorizava e criava a cultura, onde a filosofia encontrou a língua perfeita para exprimir sutilezas do pensamento humano) ter gerado, apoiado e ter-se aproveitado das barbaridades criadas pelos nazistas e pelo Hitler?

Todo que possa existir de mais cruel dos homens sem a menor compaixão pelos outros foi incrustado num povo todo por um cara quase iletrado, porém dotado de uma retórica avassaladora.

Este povo todo (claro que com as excessões dos parentes e amigos dos que me leem)tratou de caçar e exterminar judeus, ciganos, homosexuais, eslavos, poloneses, dissidentes com um empenho difícil de ser perdoado.

Não vou fazer aqui o texto do antinazismo, antigermanismo convulsivo, pois este blog é sobre as férias de 2010 do Pio. E estou usando esta referência aos nazistas por ser reconhecida por todos e para demonstrar que os belgas dos chocolates, dos waflles, da Audrey Hepburn foram muito mais terríveis do que os nazistas e do que todos os alemães rubicundos que levantavam os braços dizendo Heil Hitler com mais fé do que qualquer fanático em qualquer religião já inventada.

O Congo, onde nasceu o goleiro que comemora os gols pulando de bunda no chão às gargalhadas, foi dado a Leopoldo II da Bélgica num tratado assinado em Berlim no fim do século XIX.

O Congo foi dado a ele – o rei dos Belgas e não à Bélgica, que fique bem claro isto.

Na sua fazendona africana pelo menos 15 vezes maior do que a Bélgica Leopoldo que lá jamais pôs os pés, viu que os céus lhe haviam proporcionado a oportunidade de muita riqueza.

Mandou para lá belgas e disse a eles que trouxessem todo o marfim que pudessem colher e toda a borracha que pudessem achar.

O marfim para ser colhido requer que o elefante que o ostenta sob a forma de dentes seja morto. E que os dentes sejam retirados e transportados para um porto do oceano Atlântico.

Tribos inteiras daqueles caras que hoje comemoram seus gols alegremente pulando sobre a bunda foram escravizadas para fazer este transporte do meio da selva equatorial (equatorial mesmo por ficar debaixo da linha do equador) e mediante incentivo de chicotadas bem aplicadas que provocavam muitas mortes, devido às feridas, e ao pouco alimento, as peças chegavam à Europa, encantando o mundo.

Para evitar perdas por fugas da mão de obra do transporte das peças de marfim todos os portadores eram acorrentados pelos pés, uns aos outros, o que requeria um esforço adicional para o deslocamento.

Está achando exagerado? Porém, tem muito mais e não vou nem falar aqui.

Quanto à borracha o que se fazia era mais humano. Aprisionava-se as mulheres e crianças de tribos e se fazia ver aos homens que se não colhessem tantos quilos de borracha nas selvas nos próximos 20 dias iriam encontrar a sua família reduzida quando voltassem.

E quem não cumpria a missão encontrava mesmo umz família menor quando voltava. Como pena adicional tinha a mão direita cortada com um golpe de facão.

A conta mais benevolente de quem estudou a história do Congo belga chega a 8 milhões de negros mortos, contra os 6 milhões de inimigos do reich executados pelos nazistas.

Apesar da deficiência dos meios jornalístícos da época e apesar da “quase certeza” de que negro não era gente como os brancos esta monumental sacanagem repercutiu no mundo e como castigo Leopoldo II teve de abdicar de sua fazenda africana em nome de seu país.

E o que era Congo do Leopoldo veio a ser Congo dos Belgas em que foram instaladas escolas, formados novos líderes embora a situação não tivesse, especialmente para as tribos ferradas, melhorado muito.

Se você quer saber mais dê uma pesquisada e prepare o seu estômago e sua consciência.

O estômago pois saber de mais detalhes sobre esta história é pior do que qualquer filme de monstro que você já possa ter visto. Pois nada disto é ficção: é realidade mesmo.

E a consciência para não se sentir inferiorizado como brasileiro quando ouvir qualquer crítica em relação a sacanagens que tenhamos feito com negros ou índios e brancos por aqui.

Nem se sinta um bandido por conviver com pessoas num país que captura micos leões para exportar para a Europa em troca de uns poucos dólares.

Os belgas praticamente acabaram com os elefantes do Congo e ninguém diz isto quando se fala da Bélgica hoje.

Ao olhar a cidades e vilas, ao conversar amenidades com as pessoas nas ruas, ao comprar tortas e sorvetes, ao apreciar prédios, ou ao comer em restaurantes não é possível associar aquelas pessoas com os seus antepassados em suas aventurar africanas.

Do mesmo modo que não dá associar o cara que nos traz um chopp e salcichas fantásticas na Alemanha a seu parente que ajudou a prender e matar os milhões de executados em campos de concentração.

No caso dos alemães trata-se de uma espécie de perdão. No caso dos belgas é por absoluto desconhecimento do que os belgas mais antigos fizeram.

Na Bélgica ninguém se sente “culpado” por coisa alguma ocorrida.

Não foram eles que inventaram nada daquilo, e os que fizeram só o fizeram por terem recebido ordens de quem era muito mais capacitado do que eles.

Até escrevi sobre este fenômeno no Almanaque do Pio em maio de 2010Falei sobre o experimento de Milgram e desafiei os leitores a escaparem de seus efeitos.

Vale a pena mesmo numa viagem de férias se questionar sobre estas coisas...

De volta à nossas férias

Mas nada desta história estava nas nossas cogitações quando saímos de Bruxelas para Kortrijk, um lugar surpreendentemente grande (quase 80 mil habitantes) no meio do caminho entre Bruxelas e Bruges.


Kortrijk é muito viva, pois tem muitos estudantes, dois shoppings maiores, hotéis, bares e restaurantes que atraem os habitantes das redondezas, além de uma feira no fim de semana que desde tempos medievais justifica a existência de vilas e vilarejos onde se pode fazer negócios.

Como não é uma cidade badalada como Brugges ou Ostende, no litoral, em Kortrijk não foram feitas concessões para atrair turistas.

As igrejas medievais são exatamente as mesmas igrejas dos séculos XIII, ou XIV que foram mantidas em pé, ou reconstruídas depois de sua destruição em alguma guerra.

Não são igrejas cenográficas.

Os sinos tocam muito para a população que tem maioria de católicos. As missas, porém, parecem raras. Embora as estatísticas mencionem maioria de católicos há uma apreciável percentagem dos belgas que não professam religião alguma.

A escassez de missas se dá por falta de padres, uma vocação cada vez mais difícil de se encontrar na nova Europa.

A preservação do que é antigo em Kortrijk não é para os outros verem, mas porque a população local não quer aparentemente mudar tanto assim as suas vidas.

Sempre me pergunto o que leva pessoas – em qualquer lugar da terra, inclusive no Brasil – a continuar vivendo em cidades pequenas onde a vida parece enguiçada. Tal como no filme sobre o tempo em que os dias enguiçam e se repetem numa cidade americana onde uma marmota prevê como será o inverno.

Minhas conversas capengas locais (em francês ou inglês) para tentar saber o que lhes atraia ali, cheguei a uma conclusão simplista: o que lhes impulsiona é a certeza de que se continuarem fazendo o que fazem, podem aspirar a uma vida longa.

O que vem a ser o sonho de todas as pessoas normais do mundo.

Nada de inventar muitas novidades, nada de apoiar mudanças que vão tornar a vida muito diferente daquela vivida pelos antepassados. Tudo isto gera stress e é anti vida feliz em cidades pequenas, especialmente em Flandres, na Bélgica.

O hotel em que ficamos o Belford, na praça principal era um modelo do estabelecimento local adaptado ao movimento de visitantes. Instalações que incluem tudo o que um passante precisa ter numa visita curta: bons banheiros, boa cama, boa geladeira no quarto e bom café da manhã.

Além disto, as salas usadas no café da manhã viravam restaurante para almoço e jantar onde eram servidas as especialidades belgas, inclusive um incrível filé mal passado de boi limousin, Coisa muito boa até para concorrer com a melhor carne argentina.

Andar nas ruas antigas de Kortrijk permite a cada um reviver (ou viver) a experiência de andar em ruas de uma cidade do século XII. Não porque elas foram, tal como numa DisneyWorld, construídas para parecer medievais, mas porque elas são medievais mesmo.

De vez em quando há cantinhos retirados numa parede mais alta para ser usado como local para urinar. Mas, hoje, aparentemente não são usados estes locais, embora haja escoamento da urina para a rede de águas pluviais.

Como tudo na Bélgica (e em Flandres em especial) qualquer lugar a que você vá fica mais perto do que Teresópolis do Rio. Por isto usamos Kortrijk como base para explorarmos as redondezas.

Tudo sem hesitações, sem perguntar coisa alguma a qualquer pessoa nas ruas, que além de nos responder em flamengo possivelmente – como todas as pessoas a que se peça informações em qualquer lugar do mundo – possivelmente, repito, iria nos informar errado.

Com muitas exceções devo dizer aqui antes de meus companheiros de viagem que adoram pedir informações me estraçalhem...

Mas, a chave da independência em viagens é o GPS. “Tournez a droite, restez a gauche, en 700 metres, sortez à gauche”, a máquina e suas dezenas de satélites não deixam você entrar errado ou se perder nas mais emaranhadas cidadezinhas.

E foi assim que partimos para Brugges que além de seu peso na história do mundo tem um peso especial na história do nome de família: Borges.

Consta que o lusitano Gil Eanes, por volta dos 1400 lutou em Bruges, escapou vivo e recebeu do rei de Portugal um brazão com um leão rampante e a consagração de seu novo nome de família, Borges, uma corruptela de Bruges. Por isto ver Bruges tornou-se uma visita imperiosa.

Bruges e Ostende foram visitadas em idas de carro mais curtas do que se fôssemos da zona sul do Rio para visitar Guaratiba.

Mas há infinidade de coisas para lá ver e pensar.

Bruges esconde seus segredos com empenho. Para desvendá-los seriam precisos alguns dias a mais de que não dispúnhamos.

Na região uma boa alternativa seria comer moules, mariscos negros, frutos do mar no Norte gelado...

Mas, para comer frutos do mar achamos melhor ir até Ostende que fica à beira do mar.

O restaurante escolhido foi o Restaurant Au Vieux Port, que fica no cais – a rua se chama Visserskaai e o número dele é o 32.

Os donos e operadores do Vieux Port são o Albert e a Viviane. Um casal perfeito que demonstra em cada gesto e em cada prato a sua vocação para a gastronomia.

O restaurant tem também um site http://www.auvieuxport.be que vai dar mais detalhes sobre o que fazem lá.

O que nós comemos foi um prato de camarões com o sabor máximo que um prato de camarões pode ter. A foto dele vai aqui neste blog.

Que já está com 14 páginas e deve ter afugentado todos os leitores.

Vou parar por aqui e depois prossigo com mais observações sobre a nossa viagem que mal havia começado...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Villa d`Este o hotel que é preciso entender... mas nao vale a pena se hospedar.

Como tenho falado neste blog uma viagem de recreio vai mais além dos lugares que se visita. Vai também além dos lugares que nao se visita.

No lago de Como fica Cernobbio, ao lado de Como, um lugar de sonho - talvez a maior concetracao de belas imagens nesta viagem.

Chegamos lá, vindos da Suica com o nosso Citroen Picasso, C4 Diesel depois de mais de sete horas de viagem.

Decidimos nao entrarmos em Como a direita devido a um grande engarrafamento e decidimos virar para a esquerda.

Grande ideia, pois fugimos a agitacao de uma cidade grandinha para cairmos no verdadeiro paraíso de férias do lago.

Tocamos em frente explorando os prédios que poderiam ser bons hotéis e chegamos a um, no fim da rua principal, com a nome de Villa d`Este num portal antigo.

O hotel ficava uns 300 metros para dentro e no momento me pareceu saído de um livro de Somerset Maugham.

Ali estava toda a sofisticacao de um hotel para ingleses que viviam de rendas e que em agosto iam para a Itália exatamente para encontrarem-se num lugar como aquele.

Antes, porém, de pararmos no lobby monumental, perguntamos ao porteiro diante do prédio em que faixa estavam os precos de diárias.

Algo acima de 1500 euros por apartamento.E este valor imediatamente se contrapos ao encanto de dar um mergulho no passado.

Fomos para outro hotel também a beira do lago, o Regina Olga, mais adiante onde pudemos ficar por trës noites sem nos sacrificarmos diante de uma reminiscencia do passado distante.

Mas, ao mesmo tempo, à partir daquele momento, mesmo depois de visitarmos lugares maravilhosos por estradas estreitíssimas, o Villa d`Este me levou a pensar.

Falamos ao telefone com o meu neto Pedro Pio de ele que aparentemente sabe de coisas que eu não sei, lembrou que era isto mesmo.

É o lugar mais sofisticado para passar as férias na Europa e nós queríamos precos turísticos?

A coisa porém vai mais longe.

Depois da viagem fui descobrir mais sobre o Villa d`Este e para meu conforto cheguei a algumas conclusoes sobre ele.

Quem inventou o turismo foram os ingleses no fim do século 19 e início do século 20,quando o sol não se punha sobre o império britânico.

Nice, tem o seu Promenade des Anglais por que os ingleses é que levaram os franceses a construirem hotéis onde eles (ingleses) iam passar as férias e caminhar alegremente pelas calcadas.

O Villa d`Este nasceu da mesma forma.

Tinha uma área imensa com todas as sofisticacoes que nobres ingleses pudessem desejar.

Mas, naquele tempo, uma viagem de férias era uma viagem para se ir a algum lugar e lá ficar até o fim das férias.

Ia-se e de lá se saia de trem.

O hotel tinha - tal como um transatlântico de luxo - de dotar os hóspedes de tudo o que poderiam querer fazer.

E isto tinha um preco.

Achei na Internet tudo sobre o Vila d`Este e compartilho com vocês estas coisas.

Clique no link a seguir e veja você.

www.villadeste.com/

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Quando as férias começam?




A PRIMEIRA FOTO POSTADA NÃO SAI DO BLOG, MAS DUAS NOVAS ESTÃO AQUI: A PRIMEIRA UMA ESQUINA TÍPICA DE PARIS, COM UM CAFÉ E TODAS AS LEMBRANÇAS QUE UM CAFÉ NOS TRAZ.

A SEGUNDA FOTO É DE UMA RUA BEM PRÓXIMA AO HOTEL DU LEVANT, NO QUARTIER LATIN, MEDIEVAL COMO TUDO EM TORNO DA NOTRE DAME, QUE REVELA O CHARME DE PARIS E JUSTIFICA SER ELA A CIDADE MAIS VISITADA POR TURISTAS NO MUNDO.


Viagem de férias ao exterior, especialmente quando não são frequentes , têm de ser vistas como um grande acontecimento em nossas vidas; pelo menos na minha vida e na vida da Teresinha.

Sair de casa, sair pelo mundo, saber aonde se vai, onde se está, o que ganhamos em visitar cada lugar, o que aquilo que vemos tem a ver com a nossa vida, são algumas das coisas a serem consideradas.

As considerações - se você der rédeas à imaginação - não têm fim, mas é justamente nesta busca de respostas é que está a meu ver a maior graça das viagens de passeio que por isto mesmo são muito mais atraentes do que as viagens “a trabalho”.

Viagem de trabalho é aquela em que você sai de casa com uma missão definida. Se hospeda em hotéis dedicados a atender gente de negócios (mais ou menos sofisticados), come nos melhores restaurantes da cidade, reúne-se com gente inteligente em muitas empresas, faz anotações, envia e-mails, fala ao telefone muito, por vezes faz palestras ou conferências e depois volta para casa.

Uma vez numa reunião destas nas Bahamas, na ilha de New Providence, depois de três dias do quarto para as salas de reunião, das salas de reunião para restaurantes eu me perguntei qual a grande diferença de fazer aquela reunião em New Iguaçu , por exemplo?

O lugar físico das reuniões de negócio é apenas uma conveniência geográfica. E nisto é que se torna tão diferente das viagens de prazer.

Estou cheio de cuidados para não chamar este tipo de viagens que vamos fazer de viagem turística. Claro que sendo um profissional de marketing a última coisa que poderia fazer seria desvalorizar a viagem turística.

Em 2010 possivelmente teremos alguma coisa como 1 bilhão de pessoas fazendo viagens turísticas por toda a terra. E neste bilhão de pessoas (1/6 da população do mundo) , nós dois e mais a Lúcia e o Alcides, com quem viajamos, estaremos computados.

Vou começar com algumas observações sobre esta ideia de fazer viagens de recreio.Peço a sua paciência.

Até o século XIX quase ninguém saia de suas cidades. Viver dava muito trabalho e não proporcionava às grandes massas as condições necessárias para sair de casa. A maioria aquzsse absoluta das pessoas não podiam deixar de fazer o que faziam para garantir as suas vidas; muito menos sair gastando seu dinheirinho em outros locais...

Não havia, para os empregado nem as folgas dominicais e muito menos algo como férias remuneradas.

O dinheiro que se tinha era o dinheiro que podia ser gasto. Bancos não cuidavam de aplicações de gente sem maiores recursos. Em resumo não havia dinheiro sobrando para coisas supérfluas, principalmente porque diante da ignorância generalizada, ninguém tinha idéia do que poderia ganhar saindo de seus cantos.

Nem sequer havia transporte organizado para se ir de um lugar para o outro.

Trens estavam sendo inventados e o transporte por carruagens puxadas a cavalo tinham de se limitar a distâncias curtas. Os cavalos tinham de ser trocados de tempos em tempos (as mudas) e os passageiros tinham de ser alimentados, os cocheiros trocados. Era mais complicado do que gerenciar uma linha aérea, hoje.

A nossa história do Brasil cheia de referências a navegadores, exploradores, invasores do território português, e as incursões dos bandeirantes nos fazem imaginar o passado como um momento cheio de viagens para todo mundo e a toda hora. E estas viagens da história eram viagens muito grandes da Europa para as Américas, para a África, para a Ásia e para a Oceania.

As viagens no entanto se faziam nos tempos mais antigos, desde da Grécia clássica, por três razões básicas:

1. Ganhar dinheiro ou vantagens que não podiam ser obtidos onde os “viajantes” estavam.

2. Ganhar os corações e mentes dos povos residentes nos lugares que seriam visitados.

3. Ganhar novos espaços para viver e fugir de condições desfavoráveis onde viviam os “viajantes”.

A coisa mais próxima do que pudesse ser chamado de turismo eram as viagens para lugares como Epidauro, na Grécia, para receber tratamento médico de Esculápio e seus seguidores.

Não existia nada que pudesse ser classificado como turismo.


Fazer turismo no sentido aceito por todos hoje de ir a lugares para divertir-se, tomar banhos de mar, praticar esportes locais, tal como subir montanhas, acampar nas matas, comer as especialidades regionais, tudo isto nem poderia ser imaginado como ficção,

Turismo, nas definições oficiais, é algo que implica em viagem de pelo menos 24 horas (e um máximo de seis meses) em que as pessoas saem de suas cidades e a elas voltam. Nas viagens de turismo não se deve ganhar dinheiro. O correto nas viagens de turismo é gastar dinheiro em troca de prazeres e boas lembranças.

O mundo – por absoluta falta de comunicação entre os povos – era até o século XIX pelo menos, um lugar muito mais soturno, fechado e a nosso ver, muito sem muita graça para os seus habitantes.

Algo que para mim guarda uma relação com o mundo animal: quando você quando esquece a maluquice de olhar os animais como gente (coisa que foi promovida pelos desenhos animados com bichos falates) vai perceber que animais só se interessam em preservar as suas vidas.

Bichos não contam com supermercados, nem com assistência médica, nem tribunais ou leis que os garantam ou protejam e eles saibam disto para poderem sobreviver.

Não é sem razão que os bichos sejam tão sérios.

O passarinho que “perca o seu tempo” para dar uma risada acaba sendo comido por outro pássaro maior que dedique o seu tempo a buscar comida da forma mais objetiva.

Cachorros não riem gatos não riem nem ursos, nem baleias, nem tartarugas. – faça a sua lista.

Pense agora em nossos antepassados, nas cidades e casas em que viviam e de onde percebiam que suas vidas estavam sempre por um fio. Isto era bem próximo da vida dos animais... com todo o respeito.

Qualquer epidemia acabava com as cidades, desmontava as famílias, enchia os cemitérios. O que nos tornou muito diferentes dos animais dedicados a sua sobrevivência foram duas invenções humanas que nos trouxeram com orgulho aos dias de hoje: a fé religiosa e todo o respeito pelos mitos e a arte em todas as suas formas.

Acho que somente quando pensamos e criamos fazemos coisas que realmente valem a pena.

Quanta conversa mole antes de começar a escrever sobre a nossa viagem de férias...



Mas, como disse antes, não acho que uma viagem, especialmente quando vamos fazê-la depois de algumas décadas de vida , pode se resumir a ir de um lugar para o outro, tirar fotos e mais fotos, comer refeições em lugares interessantes, hospedar-se em hotéis e depois voltar para casa apenas com estas lembranças (que vão se desvanecendo em nossa memória muito depressa) como o único valor obtido.

A viagem de férias física só se torna completa quando podemos pensar uma porção de coisas sobre ela...

Daí este meu cuidado em classificá-la como viagem de prazer, mais do que viagem de turismo.

A nossa tendência de deixar um rastro de destruição ao longo de nossas viagens de férias.



As últimas férias que tivemos nos aventurando de carro por vários países da Europa foram em 1968! O ano que não acabou, conforme o Zuenir Ventura. Não vou falar sobre 1968, pois só me lembro bem das barricadas nas ruas de Paris, do gás lacrimogêneo, da polícia baixando o cassetete nos estudantes e de nós assistindo aquilo tudo ao vivo a partir do Hotel Du Levant, na Rue de l’Harpe no Quartier Latin.

Embora toda a agitação nas ruas presenciada e vivida por nós , a gente só se dá conta que viveu a história quando aquilo passa a ser considerado história pelos analistas.

Mas a nossa decisão de viajarmos de carro pela Europa há uns dois meses atrás teve uma motivação mais simples: comemorar o aniversário da Teresinha aproveitando os feriados do início de outubro por uns 20 dias.

Combinamos com a Lúcia e com o Alcides fazermos a viagem juntos algo que pode ser um motivo de muita amolação quando não se compartilha sinceramente de idéias semelhantes, consolidadas em mais de 20 anos de amizade, convivência e conversas nos davam a certeza de que a nossa viagem poderia ser muito agradável... e foi.

Disse a Teresinha e a eles que iria escrever este blog como um registro das férias, mas não disse a ninguém o que estava por trás das minhas observações locais. Nem tomei notas, nem fiquei racionalizando o que estávamos fazendo, pois tinha a certeza de que se fizesse isto estaria tornando a viagem de todos muito chata.

Por decisão de todos os carros que alugamos para a nossa viagem foram sempre dirigidos por mim. Não por ser fominha de direção, mas porque ao longo da vida conclui que dirigir carros em qualquer situação nunca me faz ficar tenso.

Uma frase que costumo usar é que um carro é um sofá que se desloca enquanto você (eu) vê coisas interessantíssimas passarem diante de seus olhos.


Nesta viagem desde o primeiro minuto no carro alugado – que não foi um Volvo mas um Citroen Picasso C4 – foi com o uso de um GPS.

Se antes disto eu me divertia em seguir mapas rodoviários que tinham de ser rapidamente interpretados pela Teresinha – que naturalmente se desesperava em seguir os percursos enquanto carro rodava – agora alguém faz isto por nós ligada em vários satélites. Um voz em francês saída de uma caixinha onde a estrada – e as ruas por menores que sejam e cada cidade – aparecem sem deixar margens a dúvidas, se torna cada vez mais confiável.

Hoje, com todo o respeito por quem ficava estressado ao dirigir, qualquer barbeiro chega onde quiser se tiver um GPS instalado no carro.

O que sempre será preciso é você saber aonde você quer ir, e mudar os destinos sempre que lhe pareça uma coisa boa ser feita.

Fazer uma viagem de prazer tendo de observar roteiros e horários precisos fazem a viagem perder a graça e tornar-se numa gincana, feita sem motivo algum.

O justo equilíbrio entre o planejado e o executado é que dá toda a graça às viagens.
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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Mudanças nas postagens: o diário vai ser diferente do que previ. Espero que não fique chato...

CONSEGUI POSTAR AS FOTOS !!!

Aqui estão a Teresinha, a Lúcia e o Alcides Bethlem os alegres companheiros destas férias do Pio.

Depois de voltar e de entrar no ritmo do dia-a-dia estou sentindo que o almanaque de férias poderia ser prejudicado.

Decidi então escrever as postagens e depois transferi-las para cá.

Estou com uma imensa dificuldade de juntar imagens ao blog.

Tenho as fotos, mais de 700, e uma imensa vontade de juntá-las ao texto, mas não acho os caminhos. Não há ícones para fazer estes acréscimos.

Mas vou aprender .

A próxima postagem não poderia ser feita sem fotos.

Logo, por favor aguardem.

Em Lisboa, eu que sou um emérito apreciador de carne comi um filé inesquecível no Império.

Filé a Império é algo que não consigo entender porque alguém não faz aqio também.

Dou os detalhes depois com fotos do prato e redeitas.