olha a foto!

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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Em Kortrijk pude descobri uma nova chave para entender como a Bélgica na verdade são duas...



Aqui estamos os quatro em nosso primeiro encontro na Bélgica. O carro estava alugado no estacionamento e de lá iríamos sair em 15 minutos para Kortrijk


A primeira cidade em que ficamos na Bélgica se chama Kortrijk. Nem tente pronunciar este nome, nem qualquer outro nome em flamengo, ou holandês.

O Gouda, dos queijos, tem uma pronúncia local com um som rascante vindo da garganta mais parecido Rrrouada. Algo impensável para gente que fala português... Imagine Kortrijk.

Kortrijk é o nome de uma cidade de Flandres em flamengo – o holandês falado no país – Em francês (a outra língua oficial da Bélgica)seu nome é Courtrai. Mas, não existe uma única placa com este nome em francês em toda a cidade.

Estranho, não é? Uma cidade que tem dois nomes, em duas línguas oficiais do país, e não exibe nas suas ruas, ou nas estradas que levam a ela, uma única placa em que apareçam os dois nomes...

Isto poderia ser visto como uma simples curiosidade, coisa de europeus, mas este fato me levou a crer que por trás dele poderia estar uma parte da explicação do grande mistério que a Bélgica representava para mim...

Um país em que os selos colecionados na infância tinham escrito Belgie-Belgique. Até nos selos eles faziam questão de afirmarem sua dualidade como país.

Por isto, logo ao chegar ao Hotel Belfort, na praça central de Kortrijk, pensei mais nas duas Bélgicas.

Embora se pense na Bélgica como um só país, na verdade a Bélgica são dois países separados por claras fronteiras internas. E as duas Bélgicas demonstram não se curtirem muito: elas têm grandes diferenças entre as etnias que se tornam ainda mais acentuadas quando os números da economia são examinados.

O Brasil também não é um país só. Basta prestar atenção. Nada pode ser mais diferente que um município da Amazônia e outro numa colônia de origem italiana no Rio Grande do Sul.

Se você quiser descobrir países diferentes no Brasil vai achar muitos outros exemplos.

Só que na Bélgica estes dois países foram definidos no século XIX como a solução desejada por todos. Portanto, mais de 100 anos depois, deveria funcionar muito bem – como funciona na Suíça, ali ao lado.

Mas ao visitar a Bélgica se percebe que o entendimento dos belgas de fala francesa com os belgas de fala flamenga só não incomoda mais a eles por que um lado não liga muito para outro, exceto quando as questões se relacionam às finanças.

Chegamos à Bélgica de trem - TGV - na estação do Midi em Bruxelas (a única cidade que tem as duas Bélgicas reunidas numa só) depois de passarmos três dias em Paris.

Umas observações rápidas sobre Paris para depois voltar a falar de Kortrijk

Paris é uma cidade global. No ranking das mais visitadas publicado pela Folha
de São Paulo está a justificativa de você andar por ruas em que se falam todas as línguas do mundo.

O que espanta mais é que aparentemente aquela gente de fora, nós inclusive, não parecemos turistas típicos, como os que visitam a Disneyland. Parece que todos visitantes vão fazer alguma coisa lá. Poucos são os que vão apenas para passear, como no passado.

Nesta linha de raciocínio aposto que vai ter uma surpresa ao verificar que a cidade mais visitada do mundo é Londres.Paris com quase 10 milhões de visitantes por ano é a terceira, depois de Bancoc, a que fica em segundo lugar!

AS CIDADES MAIS VISITADAS NO MUNDO (número de visitantes em milhões de pessoas por ano) 1.

1. *Londres - 15, 640
2. *Bancoc - 10, 350
3. *Paris - 9, 700
4. Cingapura - 9, 502
5. *Hong Kong - 8, 139
6. *Nova York - 6, 219
7. Dubai - 6, 120
8. *Roma - 6, 033
9. Seul - 4, 920
10. *Barcelona - 4, 695
11. Dublin - 4, 469
12. Bahrein - 4, 418
13. Xangai - 4, 315
14. *Toronto - 4, 160
15. Kuala Lumpur - 4, 125
16. *Istambul - 3, 994
17. *Madri - 3, 921
18. *Amsterdã - 3, 901
19. Meca - 3, 800
20. Praga - 3, 702
21. Moscou - 3, 695
22. Pequim - 3, 593
23. *Viena - 3, 339
24. Taipé - 3, 280
25. São Petersburgo - 3, 200
26. Cancún - 3, 074
27. Macau - 3, 072
28. *Veneza - 2, 927
29. Varsóvia - 2, 925
30. *México - 2, 823
31. Los Angeles - 2, 513
32. Guangzhou - 2, 512
33. Benidorm - 2, 457
34. Berlim - 2, 309
35. *Rio de Janeiro - 2, 185

Marquei com um * as cidades que conheço e fica evidente que estou longe de ser um grande viajante internacional. Mas, presto muita atenção ao que vejo, pelo menos...

Olhando esta lista, percebemos que Seul é mais visitada do que Barcelona ou Madri.

Que Macau (deve ser pela atração do jogo em casinos) recebe mais gente do que Veneza, México, ou Los Angeles.

E que o Rio é a 35ª cidade turística do mundo. Coisa que nem imaginava. Nem se fala de São Paulo, nem de Buenos Aires neste ranking.

Quando chegamos a Paris em setembro de 2010 lembramos de nossa primeira visita à cidade em maio de 1968. Naquela ocasião o pau estava comendo nas ruas. O hotel em que ficamos, o Du Levant, ficava no miolo da confusão e a partir dele pudemos assistir a história acontecer, bastando sair para a rua.

Havia estudantes e policiais em conflito. Havia gás lacrimogêneo, passeatas, barricadas feitas com paralelepípedos e estudantes por todos os lados. Desta vez não foi um vigésimo daquilo.

Começamos a perceber que estava se armando nova confusão histórica ao constatarmos a ocupação crescente da cidade por ativistas da FO – Force Ouvriere.

Gente identificada por braçadeiras com o FO e ar zangado nas caras sérias para organizar passeatas desta vez contra a elevação da idade mínima para a aposentadoria para mais dois anos...

Não iam aceitar a proposta do Sarkozy, qualificado juntamente com a Carla Bruni com os piores adjetivos imagináveis. O problema é que as contas do país não vão fechar e nem com dois anos a mais de trabalho e contribuições os franceses vão encontrar a saída.

O notável no espírito dos franceses que inventaram o Liberté, égalité, fraternité é a sua disposição de protestar marchando em bloco. Em setembro de 2010, as senhoras e os senhores (muito mais do que os estudantes) - que em 1968 ainda deviam estar no jardim de infância - se preparavam seriamente para repetir nas mesmas ruas as passeatas de protesto (sem barricadas e sem confrontos com os flics desta vez) que seus pais haviam feito.

Os três dias em Paris se tornaram numa oportunidade de vivermos este novo momento histórico francês ao vivo, se bem que desconfiássemos que toda aquela agitação de nada iria adiantar, como depois de nossa volta se confirmou.

A solução das contas internas na França e no resto da Europa não tem como fugir das antigas operações aritméticas. Dois mais dois serão sempre quatro, e não adianta dizer que o presidente é uma besta e sua esposa uma “vadia” na tradução mais gentil que posso fazer dos adjetivos que ouvi

Esta é a vantagem de uma visita rápida: chegar a soluções simplistas para complexos problemas

Por isto convido a todos para voltarmos à Bélgica.
.


Fomos para Bélgica no trem de alta velocidade em que embarcamos por volta das 11 da manhã na Gare Du Nort em Paris para chegarmos a Bruxelas na hora do almoço pouco mais de uma hora depois.

Como o TGV está nos planos do Brasil prestei atenção a alguns detalhes que tendemos a deixar de lado quando não temos um interesse maior sobre ele.

A Gare Du Nort, em Paris, se parece com qualquer charmosa gare antiga do mundo. De um lado há guichês para a compra de bilhetes, e até uma atenção maior na área de venda dos bilhetes do TGV para Bruxelas.

Do outro lado estão as plataformas de onde saem os trens.

Mas, depois de comprar as passagens não havia carregadores à vista para levar as nossas malas até o vagão.

O trem já estava encostado na plataforma. E nós tivemos de achar o nosso vagão rebocando as nossas malas com rodinhas, sem maiores dificuldades, pois é para isto que as malas têm rodinhas. Sem maiores dificuldades também porque não estava chovendo. Se estivesse, como o trem se estendia para bem além da cobertura da estação, teríamos de nos virar com capas e guarda chuvas e mais as malas com rodinhas...

A aparente extravagância financeira de comprar dois bilhetes de primeira classe (mais ou menos 100 euros a mais) , se deveu a um preconceito meu em relação a viajar perto de europeus que fogem dos banhos e à lavagem regular de suas roupas.

No vagão da primeira classe os assentos de luxo são muito mais espaçosos: têm dois lugares de um lado do corredor e um isolado no outro lado. No TGV que tomamos há alguns anos para Londres, as poltronas tinham três assentos e uma terceira pessoa podia juntar-se a nós.

Se a diferença de preço fosse maior estava disposto a encarar o risco de um vizinho (ou vizinha) com um CC assassino, mas ao avaliar o custo benefício de uma hora com segurança de maus odores achei que o investimento de 100 euros valia a pena.

E o investimento se pagou!

Já sentados na nossa primeira classe, surgiu um cidadão que atacava os circunstantes a uma boa distância com a sua “guerra química” particular.

Graças ao bom Deus foi sentar-se bem longe de nossos assentos e de nosso olfato.

Ao escrever sobre isto tenho a certeza de estar fazendo o tipo de coisa politicamente incorreta.

Mas, não posso deixar o tema do CC de lado para que não perca a oportunidade de dar esta dica de viagem para os amigos e leitores preconceituosos como eu em relação a este aspecto da cultura européia, para dizer o mínimo.

Desde lá declaro reconhecer o direito de franceses, e europeus em geral, de achar estes cuidados para fugir ao CC o máximo da frescura podendo eles listar uma infinidade de coisas chocantes para eles no Brasil, muito mais importantes do que o mau cheiro das pessoas.

Nem vou fazer a nossa lista, pois há muita coisa, mas meu problema na viagem à Europa era fugir do CC deles por lá E este era um problema que pude tomar providências para evitar, gastando uns 100 euros a mais.

Também, bem instalado nesta nova viagem no TGV prestei atenção a um detalhe importante:

Não se percebe qualquer ruído nem qualquer vibração quando o trem se desloca. Nas emendas dos trilhos você não ouve aquele troc-troc, que sempre associamos a viagens de trem. Isto não existe no TGV.

A linha férrea é tão lisa como o melhor asfalto, e os trilhos aparentemente não têm juntas que eu, um ignorante em engenharia ferroviária, sempre achei essenciais para evitar que os trilhos dilatados pelo calor ao sol forte se soltassem e fizessem os trens descarrilarem quando a temperatura do dia mudasse...

Parece que estamos num elevador rápido que se desloca na horizontal. Talvez se houvesse a vibração do troc-troc a 400 quilômetros por hora os vagões se desmontassem.

O trem acelera suavemente e só nos cabe olhar pelas janelas e ver o cenário passar cada vez mais veloz como num filme mudo a cores e em três dimensões.

E o que vemos da janela de Paris a Bruxelas são cenários em que quase qualquer foto isolada poderia se tornar num cartão postal.

Pequenas cidades, com casas muito bem conservadas, ruas vazias e limpas, igrejas com torres antigas e seus antigos relógios (até o século XIX o relógio da igreja era a única hora disponível para a população) e mais, pequenas fábricas, fazendas com pequenas plantações, tudo pequeno com muito verde passando depressa pela janela.

A Bélgica é feita destes panoramas pequenos em todas as suas regiões: é um país quase plano, com uma infinidade de vilas e pequenas cidades cujas histórias militares assustadoras formam um contraste impressionante com o cenário bucólico visto no presente.

Ao chegarmos a Bruxelas nos encontramos com a Lúcia e o Alcides (que aparecem na foto de abertura deste blog em Kortrijk) e com eles fomos pegar o carro que alugamos do Brasil – um Citroen Picasso C4 diesel equipado com um GPS - que nos levou em menos de uma hora até Kotrijk.

Pode parecer coisa de gente idosa, mas com o GPS se torna impossível haver qualquer problema para saber onde entrar, quê estrada preferir, em quê placas acreditar mais.

O GPS mudou a forma de fazer turismo em automóveis da mesma forma que o GPS em barcos e veleiros permite a qualquer imbecil saber onde está em qualquer lugar dos mares, sem sextantes ou cronômetros.

No GPS do carro basta seguir o que a moça fala por trás da telinha e acreditar nela..

Ela e seus satélites conhecem cada viela onde quer que você se meta até os números das casas. Se você decide fugir ao que ela está dizendo não se preocupe. Ela faz todos os cálculos de novo, sem reclamar, quantas vezes for preciso.

Por que iniciar nossa viagem de férias conjunta por uma cidade de que até pouco tempo antes nunca tínhamos ouvido falar ?
E por que ir visitar a Bélgica?


As decisões não muito planejadas é que dão mais graça às viagens de recreio. Ao optar por estas “aventuras” você tem a certeza antecipada de que vai auferir prazeres insuspeitados.

Nós fomos para Kortrijk por que a Lúcia tem uma irmã fonoaudióloga e professora universitária, que num congresso internacional conheceu um professor belga da mesma especialidade. O relacionamento cresceu e o casal decidiu ter endereços em Kortrijk e no Brasil.

Kortrijk, para a nossa sorte, é melhor escolha para quem como o John é professor na universidade de Gent a 30 minutos de lá de carro.

A sua universidade fica mais perto do que a Barra da Tijuca fica do centro do Rio.


Ele mora numa casa construída no século XII ou XIII e nela encontra um sossego milenar para escrever seus trabalhos. A única perturbação vem dos sinos da igreja vizinha – parede com parede – nas horas previstas.

Mas gente que tem relógios carrilhões em casa se perturba da mesma forma e com muito menos charme do que com o carrilhão de uma igreja do século XII.


Kortrijk é também a melhor alternativa para quem queira visitar a Bélgica e fazer de lá a sua base para ir às outras cidades e entender melhor o como o país e vizinhança funcionam.


De Kortrijk tudo é perto. Cidades como Ostende, Bruges, Antuérpia, Amsterdã, na Holanda e Luxemburgo, tudo fica a distâncias equivalentes a se ir do Rio para a Serra ou para a região dos lagos por estradas impecáveis.

Viajar é mais gostoso quando podemos nos fazer de exploradores que tentam entender, sem maiores riscos, como vivem os “aborígenes”. Tentar descobrir como adquiriram os seus usos e costumes presentes (como serem os reis dos chocolates, serem os criadores dos waffles e serem a terra da Audrey Hepburn, não necessariamente nesta ordem...) .

Por isto, além do que se pode ver nas ruas, e em a Kortrijk foi assim, tornou-se muito mais instigante descobrir por que tudo aquilo foi parar ali. Em Kortrijk e na Bélgica, há muitos mistérios para decifrar.

Houve, por exemplo, uma “guerra das esporas de ouro”, em 1240, em que Kortrijk foi arrasada. E arrasado na idade média era arrasado mesmo. Não sobrava nada em pé. Nem casas nem gente, incluindo adultos, velhos e crianças.

Mas, bastam umas dezenas de anos - o que não é muito para uma cidade com mais de 1 000 - para que tudo o que existia voltar a estar lá de novo, sob nova administração.

Por que deixar tudo arrasado? Não é somente para demonstrar que se ganhou a batalha: é preciso arrasar para demonstrar a raiva. Uma raiva beirando o irracional, que de certa forma continua a existir ainda hoje. Dew gente que fala francês contra gente que fala flamengo.

A Bélgica é um país instalado numa região bem diferente de tudo ao que nós aqui estamos acostumados a ver.

Enquanto o Brasil tem morros com matas e árvores, montanhas escarpadas, pedrugos de granito como o Pão de Açúcar, grandes florestas fechadas, pantanais, terras agrícolas maiores do que países (tudo isto espalhado em áreas quase sempre habitadas, com gente nas ruas, crianças em profusão jogando bola) na Bélgica acontece exatamente o oposto.

Vendo de longe é divertido constatar que ao vivermos em meio a esta riqueza de cenários - que adoramos criticar - sentimos a sua falta quando nos deparamos com o oposto.

O estado do Rio é um pouco menor do que a Bélgica. As estradas belgas são um luxo, suas cidades são bem organizadas, limpas e bem sinalizadas. Não existe nada que se possa parecer caos urbano, nem mesmo uma pequena bagunça urbana... E também não existem favelas.

Até os pedintes (que existem aqui e ali ) usam ternos. A motivação deles é mais térmica do que referente à elegância. Mas, é bem diferente alguém pedir esmolas de terno, sem gravata é verdade, mas de terno e falando em flamengo...

A Bélgica, além destes detalhes, tem um rei, que não se chama como seria de esperar de “rei da Bélgica”, mas rei dos belgas. A explicação para esta sutileza é que pela constituição definida depois do país tornar-se independente dos Países Baixos, definiu que o rei reina sobre uma comunidade e não sobre um território onde a comunidade vive. As pessoas seriam assim mais importantes do que o solo. Ele é o rei das pessoas belgas e não o rei das terras em que a Bélgica foi instalada.

Coisa sutil paca. O tipo de conhecimento que leva você a filosofar sobre este negócio de ser rei, de pertencer a famílias com os mesmos sobrenomes que reinam sobre uma porção de países diferentes, casam com seus primos e primas, entram em guerra de quando em quando, e levam os seus países a guerras e mais guerras em que as fronteiras se expandem e se retraem depois de uma porção de gente ser sacrificada.

O primeiro rei dos belgas foi Leopoldo I em 1832, quando o país tornou-se independente. Depois dele veio o Leopoldo II que merecerá alguns parágrafos nada lisongeiros mais adiante neste texto.

Agora esqueça tudo o que leu sobre esta história tão bem engendrada sobre rei dos belgas: os príncipes belgas são reconhecidos e chamados de príncipes da Bélgica. Parece contraditório, não é? E invalida toda a história anterior, não é?

Em função destas coisas é que os belgas ganharam uma reputação de meio enrolados, de meio confusos e não sou eu, neste texto de observações sobre uma viagem que vou resolver este problema...

Para existir os belgas elaboraram um sistema administrativo combinando os interesses (conflitantes) de seus dois principais grupos lingüísticos – os de língua francesa e os que falam flamengo.

A família real garantiu a seus príncipes um lugar cativo no congresso. Basta ser príncipe para se qualificar como senador.

O desafio dos ministros é harmonizar os interesses de toda ordem dos belgas que falam flamengo (em Flandres) os dos belgas que falam francês, no Vaulois. Sem descontentar uns 40 mil que falam alemão...

Seria muito difícil uma organização assim funcionar sem atritos. E não funciona.

Embora a Suíça demonstre que isto tem sido possível, desde que o país não participe de guerras. Na Bélgica os belgas que falam flamengo ganham mais dinheiro e são administradores mais eficientes do que os que falam francês.

Para chegar ao que é hoje o país passou por grandes mudanças ao longo da história. A área em que ele está é a fronteira entre os europeus do norte (germânicos) e os europeus do sul (franceses e latinos) que se têm dedicado a guerrear entre si com renovado afinco sempre que achem (um lado ou o outro) que têm mais forças.

O território da Bélgica se fosse projetado como cenário para grandes batalhas teria saído melhor do que a encomenda. E uma encomenda que vem sendo testada ao longo de centenas de anos.

Mas, este lado soturno da história não é percebido pelo visitante de hoje. Quando fui presidente de uma agência de marketing direto multinacional aprendi numa reunião na Europa que havia um grande problema para criar malas diretas na Bélgica: cada carta ou folheto tinha de combinar criatividade e os aspectos legais tendo de usar duas línguas ao mesmo tempo.

O texto deveria ser apresentado obrigatoriamente em francês e em flamengo exigindo o dobro do espaço, pois se isto não fosse feito a agência ou o cliente seriam processados.

Caramba, um país pequeno deste jeito, e TUDO tinha de ser escrito em duas línguas?

Pronto, aí começava e terminava o meu conhecimento sobre as peculiaridades da Bélgica.

Nunca me vi obrigado a saber mais. Imaginava apenas que cumpridas estas regras tudo correria bem para eles que tinham uma pedra de roseta em cada envelope, permitindo saber como falavam e escreviam aquelas coisas em duas línguas.

O assunto tornou-se para mim uma boa conversation piece.

Mas quando você dá mais atenção a esta peculiaridade pode deduzir que o problema deve ser maior.

Se é preciso mesmo escrever em duas línguas é porque os belgas que falavam flamengo não entendiam francês e vice-versa. A providência de ter os textos nas duas línguas não era apenas uma providência política, mas uma necessidade para poder se fazer entendido.

E a briga entre as duas facções continua séria. O governo, enquanto estávamos lá, não conseguia chegar a acordos para formar um novo ministério, mas do lado de fora, no mundo, não se tomava conhecimento disto.

Para ganhar espaço nas páginas de noticiário internacional seria preciso um assunto mais sério. Precisa ter gente presa, gente levando pancada, gente morrendo. Esta conversa de montar um governo com belgas de fala francesa e belgas de fala holandesa na cabeça dos editores internacionais tem mais cara de problema local do que notícia para competir com uma guerra das Coréias, por exemplo.

Mas, isto tudo foi apenas um pano de fundo quase imperceptível da nossa viagem que foi muito prazerosa.

Percorrer a Bélgica de carro é fácil e seguro. Os pequenos cenários se sucedem como se os contra-regras de um teatro quisessem mostrar todo o estoque de cenários em menos de uma hora de espetáculo.

Cito sempre o tempo curto, pois, se você dirigir em alta velocidade em qualquer direção por mais de uma hora sairá quase sem perceber da Bélgica para a Alemanha, Holanda, Luxemburgo, França ou Suíça.

Na Bélgica tudo é perto de tudo. O país é praticamente plano. O seu ponto culminante fica a 600 e poucos metros de altitude na floresta das Ardenas; é mais baixo do que o Corcovado, no Rio de Janeiro.

Não foi sem motivo que o território belga se tornou no grande campo de batalha da Europa.

Todos os exércitos, desde a era da pedra lascada passando pelos soldados com uniformes coloridos marchando ao som de cornetas e tambores até chegar aos uniformes verde-oliva da primeira e da segunda guerras mundiais todos eles se mataram e morreram naqueles belos campos belgas.

A costa da Bélgica em frente ao Mar do Norte tem apenas 65 quilômetros, mais ou menos a extensão das costas do Piauí diante do Atlântico. Só que o Piauí tem mais ou menos 4 vezes a área da Bélgica.

Mas, a costa belga é considerada a mais bela da Europa diante do Oceano Atlântico do qual o Mar do Norte é uma parte.

A beleza do lugar onde se vive tem sempre uma grande influência na vida das pessoas.

Beleza na natureza sempre corresponde à mais beleza nas criações humanas existentes em cada lugar. E a Bélgica pequena, dividida, com uma população pequena tem atrações para visitantes de todos os gostos.

Os cenários que nós vemos com prazer das janelas de um carro rodando em velocidade foram vistos com uma atenção imensa pelos oficiais que tinham de lutar contra outros exércitos escondidos por trás de algumas árvores aqui e ali. Quem não prestasse atenção morria.

E morreram alguns milhares soldados na Bélgica ao longo da história. Não eram necessariamente belgas, mais europeus em geral.

Vou citar um nome: Ardenas.

No século XX, as Ardenas foram consideradas território pouco propício para manobras militares devido ao seu terreno mais acidentado e sua densidade florestal. Contudo, as Ardenas foram o percurso preferido pelos alemães quer na Primeira, quer na Segunda Guerra Mundial, para rapidamente atingir pontos mais fracos da defesa francesa.

As Ardenas foram palco de grandes batalhas como:

• Batalha das Ardenas - Primeira Guerra Mundial, (21-23 de agosto de 1914)
• Batalha de França - Segunda Guerra Mundial (10 de maio - 22 de junho de 1940)
• Batalha do Bulge - Segunda Guerra Mundial (16 de dezembro de 1944 - 30 de janeiro de 1945)

Até hoje são achadas nas Ardenas bombas que não explodiram e que são devidamente detonadas pelas autoridades de segurança na base de mais de 50 por ano.

Diante de tanta guerra podemos pensar por que o país não teria sido ocupado por um dos lados que tivesse mais poderio militar e acabasse de vez com este estado tão diferente.

Ora, a Bélgica só se tornou em um país devido à capacidade de negociação de seus dirigentes. Foram eles que inventaram, logo depois da Segunda Guerra Mundial, a Benelux.

Benelux é a organização econômica de onde nasceu o que seria mais tarde a União Européia.Compreende a Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo, sendo inicialmente uma área de livre comércio entre estes três países, e mais tarde, com a adição da Itália, Alemanha e França acabou por criar a Comunidade Econômica Européia (CEE).

Quem inventou a nova Europa foram os inventores da Benelux, o que já é um grande feito.

E mais uma prova de que não existem mágicas em geopolítica. Nada acontece por acaso.

Quando o país não tem força militar deve ter capacidade diplomática para negociar. E a Bélgica com suas contradições está aí para comprovar a afirmação jornalística feita neste parágrafo.

O Tratado de criação do Benelux (Union Économique Benelux) foi firmado em 3 de fevereiro de 1958 pela Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo, e entrou em vigor em 1º de novembro de 1960. O nome Benelux foi utilizado pela primeira vez neste tratado; é formado pelas iniciais dos nomes dos três países: BElgië, NEderland e LUXembourg.

A Benelux tinha como objetivos estimular o comércio e eliminar as barreiras alfandegárias.


E agora a nova importância de Bruxelas, independente das atribulações em satisfazer os belgas.

A organização era regida pelo denominado Parlamento da Benelux, fundado em 1955. O Parlamento era composto de 49 membros, sendo 21 da Bélgica, 21 dos Países Baixos e 7 de Luxemburgo. O tratado que estabeleceu oficialmente a Benelux garante também o direito de livre comércio e deslocamento de cidadãos entre os países-membros, dando-lhes total estímulo comercial.

Bruxelas, além de ser a sede da UE, também é reconhecida como a cidade-sede da Benelux.

A pequena Bélgica tornou-se mais importante quando passou a abrigar a capital da nova Europa.

O que de fato é uma reviravolta de 180º na história recente do país que visitávamos.

Além das informações no seminário de marketing sobre os textos das cartas serem obrigatoriamente em duas línguas eu guardava meio soterrada, propositalmente deixada de lado, outra informação sobre a Bélgica, ocorrida algumas décadas antes.

Diante da viagem prazerosa, do que vimos e aproveitamos na nossa rápida visita nem queria tocar no assunto, mas ao escrever sobre a capacidade de negociar dos belgas fui sendo lentamente levado a cometer um “sincericídio” em relação às pessoas que lá me receberam tão bem.

Minha outra referência na memória sobre a Bélgica - e sobre os belgas - se chamou Congo Belga.

Não vou contar aqui a história do Congo, mas vou usar fatos históricos lá ocorridos para dar uma luz sobre a capacidade dos seres humanos se superarem na tarefa de atuarem como demônios cuja existência num inferno imaginado seria considerada um absurdo pelo mais desvariado ficcionista.

Vou simplificar esta afirmação vou recorrer a uma metáfora:

Alguma vez você se perguntou como foi possível a Alemanha onde nasceram Bethoven, Bach, Goethe, Kant,(uma região que valorizava e criava a cultura, onde a filosofia encontrou a língua perfeita para exprimir sutilezas do pensamento humano) ter gerado, apoiado e ter-se aproveitado das barbaridades criadas pelos nazistas e pelo Hitler?

Todo que possa existir de mais cruel dos homens sem a menor compaixão pelos outros foi incrustado num povo todo por um cara quase iletrado, porém dotado de uma retórica avassaladora.

Este povo todo (claro que com as excessões dos parentes e amigos dos que me leem)tratou de caçar e exterminar judeus, ciganos, homosexuais, eslavos, poloneses, dissidentes com um empenho difícil de ser perdoado.

Não vou fazer aqui o texto do antinazismo, antigermanismo convulsivo, pois este blog é sobre as férias de 2010 do Pio. E estou usando esta referência aos nazistas por ser reconhecida por todos e para demonstrar que os belgas dos chocolates, dos waflles, da Audrey Hepburn foram muito mais terríveis do que os nazistas e do que todos os alemães rubicundos que levantavam os braços dizendo Heil Hitler com mais fé do que qualquer fanático em qualquer religião já inventada.

O Congo, onde nasceu o goleiro que comemora os gols pulando de bunda no chão às gargalhadas, foi dado a Leopoldo II da Bélgica num tratado assinado em Berlim no fim do século XIX.

O Congo foi dado a ele – o rei dos Belgas e não à Bélgica, que fique bem claro isto.

Na sua fazendona africana pelo menos 15 vezes maior do que a Bélgica Leopoldo que lá jamais pôs os pés, viu que os céus lhe haviam proporcionado a oportunidade de muita riqueza.

Mandou para lá belgas e disse a eles que trouxessem todo o marfim que pudessem colher e toda a borracha que pudessem achar.

O marfim para ser colhido requer que o elefante que o ostenta sob a forma de dentes seja morto. E que os dentes sejam retirados e transportados para um porto do oceano Atlântico.

Tribos inteiras daqueles caras que hoje comemoram seus gols alegremente pulando sobre a bunda foram escravizadas para fazer este transporte do meio da selva equatorial (equatorial mesmo por ficar debaixo da linha do equador) e mediante incentivo de chicotadas bem aplicadas que provocavam muitas mortes, devido às feridas, e ao pouco alimento, as peças chegavam à Europa, encantando o mundo.

Para evitar perdas por fugas da mão de obra do transporte das peças de marfim todos os portadores eram acorrentados pelos pés, uns aos outros, o que requeria um esforço adicional para o deslocamento.

Está achando exagerado? Porém, tem muito mais e não vou nem falar aqui.

Quanto à borracha o que se fazia era mais humano. Aprisionava-se as mulheres e crianças de tribos e se fazia ver aos homens que se não colhessem tantos quilos de borracha nas selvas nos próximos 20 dias iriam encontrar a sua família reduzida quando voltassem.

E quem não cumpria a missão encontrava mesmo umz família menor quando voltava. Como pena adicional tinha a mão direita cortada com um golpe de facão.

A conta mais benevolente de quem estudou a história do Congo belga chega a 8 milhões de negros mortos, contra os 6 milhões de inimigos do reich executados pelos nazistas.

Apesar da deficiência dos meios jornalístícos da época e apesar da “quase certeza” de que negro não era gente como os brancos esta monumental sacanagem repercutiu no mundo e como castigo Leopoldo II teve de abdicar de sua fazenda africana em nome de seu país.

E o que era Congo do Leopoldo veio a ser Congo dos Belgas em que foram instaladas escolas, formados novos líderes embora a situação não tivesse, especialmente para as tribos ferradas, melhorado muito.

Se você quer saber mais dê uma pesquisada e prepare o seu estômago e sua consciência.

O estômago pois saber de mais detalhes sobre esta história é pior do que qualquer filme de monstro que você já possa ter visto. Pois nada disto é ficção: é realidade mesmo.

E a consciência para não se sentir inferiorizado como brasileiro quando ouvir qualquer crítica em relação a sacanagens que tenhamos feito com negros ou índios e brancos por aqui.

Nem se sinta um bandido por conviver com pessoas num país que captura micos leões para exportar para a Europa em troca de uns poucos dólares.

Os belgas praticamente acabaram com os elefantes do Congo e ninguém diz isto quando se fala da Bélgica hoje.

Ao olhar a cidades e vilas, ao conversar amenidades com as pessoas nas ruas, ao comprar tortas e sorvetes, ao apreciar prédios, ou ao comer em restaurantes não é possível associar aquelas pessoas com os seus antepassados em suas aventurar africanas.

Do mesmo modo que não dá associar o cara que nos traz um chopp e salcichas fantásticas na Alemanha a seu parente que ajudou a prender e matar os milhões de executados em campos de concentração.

No caso dos alemães trata-se de uma espécie de perdão. No caso dos belgas é por absoluto desconhecimento do que os belgas mais antigos fizeram.

Na Bélgica ninguém se sente “culpado” por coisa alguma ocorrida.

Não foram eles que inventaram nada daquilo, e os que fizeram só o fizeram por terem recebido ordens de quem era muito mais capacitado do que eles.

Até escrevi sobre este fenômeno no Almanaque do Pio em maio de 2010Falei sobre o experimento de Milgram e desafiei os leitores a escaparem de seus efeitos.

Vale a pena mesmo numa viagem de férias se questionar sobre estas coisas...

De volta à nossas férias

Mas nada desta história estava nas nossas cogitações quando saímos de Bruxelas para Kortrijk, um lugar surpreendentemente grande (quase 80 mil habitantes) no meio do caminho entre Bruxelas e Bruges.


Kortrijk é muito viva, pois tem muitos estudantes, dois shoppings maiores, hotéis, bares e restaurantes que atraem os habitantes das redondezas, além de uma feira no fim de semana que desde tempos medievais justifica a existência de vilas e vilarejos onde se pode fazer negócios.

Como não é uma cidade badalada como Brugges ou Ostende, no litoral, em Kortrijk não foram feitas concessões para atrair turistas.

As igrejas medievais são exatamente as mesmas igrejas dos séculos XIII, ou XIV que foram mantidas em pé, ou reconstruídas depois de sua destruição em alguma guerra.

Não são igrejas cenográficas.

Os sinos tocam muito para a população que tem maioria de católicos. As missas, porém, parecem raras. Embora as estatísticas mencionem maioria de católicos há uma apreciável percentagem dos belgas que não professam religião alguma.

A escassez de missas se dá por falta de padres, uma vocação cada vez mais difícil de se encontrar na nova Europa.

A preservação do que é antigo em Kortrijk não é para os outros verem, mas porque a população local não quer aparentemente mudar tanto assim as suas vidas.

Sempre me pergunto o que leva pessoas – em qualquer lugar da terra, inclusive no Brasil – a continuar vivendo em cidades pequenas onde a vida parece enguiçada. Tal como no filme sobre o tempo em que os dias enguiçam e se repetem numa cidade americana onde uma marmota prevê como será o inverno.

Minhas conversas capengas locais (em francês ou inglês) para tentar saber o que lhes atraia ali, cheguei a uma conclusão simplista: o que lhes impulsiona é a certeza de que se continuarem fazendo o que fazem, podem aspirar a uma vida longa.

O que vem a ser o sonho de todas as pessoas normais do mundo.

Nada de inventar muitas novidades, nada de apoiar mudanças que vão tornar a vida muito diferente daquela vivida pelos antepassados. Tudo isto gera stress e é anti vida feliz em cidades pequenas, especialmente em Flandres, na Bélgica.

O hotel em que ficamos o Belford, na praça principal era um modelo do estabelecimento local adaptado ao movimento de visitantes. Instalações que incluem tudo o que um passante precisa ter numa visita curta: bons banheiros, boa cama, boa geladeira no quarto e bom café da manhã.

Além disto, as salas usadas no café da manhã viravam restaurante para almoço e jantar onde eram servidas as especialidades belgas, inclusive um incrível filé mal passado de boi limousin, Coisa muito boa até para concorrer com a melhor carne argentina.

Andar nas ruas antigas de Kortrijk permite a cada um reviver (ou viver) a experiência de andar em ruas de uma cidade do século XII. Não porque elas foram, tal como numa DisneyWorld, construídas para parecer medievais, mas porque elas são medievais mesmo.

De vez em quando há cantinhos retirados numa parede mais alta para ser usado como local para urinar. Mas, hoje, aparentemente não são usados estes locais, embora haja escoamento da urina para a rede de águas pluviais.

Como tudo na Bélgica (e em Flandres em especial) qualquer lugar a que você vá fica mais perto do que Teresópolis do Rio. Por isto usamos Kortrijk como base para explorarmos as redondezas.

Tudo sem hesitações, sem perguntar coisa alguma a qualquer pessoa nas ruas, que além de nos responder em flamengo possivelmente – como todas as pessoas a que se peça informações em qualquer lugar do mundo – possivelmente, repito, iria nos informar errado.

Com muitas exceções devo dizer aqui antes de meus companheiros de viagem que adoram pedir informações me estraçalhem...

Mas, a chave da independência em viagens é o GPS. “Tournez a droite, restez a gauche, en 700 metres, sortez à gauche”, a máquina e suas dezenas de satélites não deixam você entrar errado ou se perder nas mais emaranhadas cidadezinhas.

E foi assim que partimos para Brugges que além de seu peso na história do mundo tem um peso especial na história do nome de família: Borges.

Consta que o lusitano Gil Eanes, por volta dos 1400 lutou em Bruges, escapou vivo e recebeu do rei de Portugal um brazão com um leão rampante e a consagração de seu novo nome de família, Borges, uma corruptela de Bruges. Por isto ver Bruges tornou-se uma visita imperiosa.

Bruges e Ostende foram visitadas em idas de carro mais curtas do que se fôssemos da zona sul do Rio para visitar Guaratiba.

Mas há infinidade de coisas para lá ver e pensar.

Bruges esconde seus segredos com empenho. Para desvendá-los seriam precisos alguns dias a mais de que não dispúnhamos.

Na região uma boa alternativa seria comer moules, mariscos negros, frutos do mar no Norte gelado...

Mas, para comer frutos do mar achamos melhor ir até Ostende que fica à beira do mar.

O restaurante escolhido foi o Restaurant Au Vieux Port, que fica no cais – a rua se chama Visserskaai e o número dele é o 32.

Os donos e operadores do Vieux Port são o Albert e a Viviane. Um casal perfeito que demonstra em cada gesto e em cada prato a sua vocação para a gastronomia.

O restaurant tem também um site http://www.auvieuxport.be que vai dar mais detalhes sobre o que fazem lá.

O que nós comemos foi um prato de camarões com o sabor máximo que um prato de camarões pode ter. A foto dele vai aqui neste blog.

Que já está com 14 páginas e deve ter afugentado todos os leitores.

Vou parar por aqui e depois prossigo com mais observações sobre a nossa viagem que mal havia começado...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Villa d`Este o hotel que é preciso entender... mas nao vale a pena se hospedar.

Como tenho falado neste blog uma viagem de recreio vai mais além dos lugares que se visita. Vai também além dos lugares que nao se visita.

No lago de Como fica Cernobbio, ao lado de Como, um lugar de sonho - talvez a maior concetracao de belas imagens nesta viagem.

Chegamos lá, vindos da Suica com o nosso Citroen Picasso, C4 Diesel depois de mais de sete horas de viagem.

Decidimos nao entrarmos em Como a direita devido a um grande engarrafamento e decidimos virar para a esquerda.

Grande ideia, pois fugimos a agitacao de uma cidade grandinha para cairmos no verdadeiro paraíso de férias do lago.

Tocamos em frente explorando os prédios que poderiam ser bons hotéis e chegamos a um, no fim da rua principal, com a nome de Villa d`Este num portal antigo.

O hotel ficava uns 300 metros para dentro e no momento me pareceu saído de um livro de Somerset Maugham.

Ali estava toda a sofisticacao de um hotel para ingleses que viviam de rendas e que em agosto iam para a Itália exatamente para encontrarem-se num lugar como aquele.

Antes, porém, de pararmos no lobby monumental, perguntamos ao porteiro diante do prédio em que faixa estavam os precos de diárias.

Algo acima de 1500 euros por apartamento.E este valor imediatamente se contrapos ao encanto de dar um mergulho no passado.

Fomos para outro hotel também a beira do lago, o Regina Olga, mais adiante onde pudemos ficar por trës noites sem nos sacrificarmos diante de uma reminiscencia do passado distante.

Mas, ao mesmo tempo, à partir daquele momento, mesmo depois de visitarmos lugares maravilhosos por estradas estreitíssimas, o Villa d`Este me levou a pensar.

Falamos ao telefone com o meu neto Pedro Pio de ele que aparentemente sabe de coisas que eu não sei, lembrou que era isto mesmo.

É o lugar mais sofisticado para passar as férias na Europa e nós queríamos precos turísticos?

A coisa porém vai mais longe.

Depois da viagem fui descobrir mais sobre o Villa d`Este e para meu conforto cheguei a algumas conclusoes sobre ele.

Quem inventou o turismo foram os ingleses no fim do século 19 e início do século 20,quando o sol não se punha sobre o império britânico.

Nice, tem o seu Promenade des Anglais por que os ingleses é que levaram os franceses a construirem hotéis onde eles (ingleses) iam passar as férias e caminhar alegremente pelas calcadas.

O Villa d`Este nasceu da mesma forma.

Tinha uma área imensa com todas as sofisticacoes que nobres ingleses pudessem desejar.

Mas, naquele tempo, uma viagem de férias era uma viagem para se ir a algum lugar e lá ficar até o fim das férias.

Ia-se e de lá se saia de trem.

O hotel tinha - tal como um transatlântico de luxo - de dotar os hóspedes de tudo o que poderiam querer fazer.

E isto tinha um preco.

Achei na Internet tudo sobre o Vila d`Este e compartilho com vocês estas coisas.

Clique no link a seguir e veja você.

www.villadeste.com/

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Quando as férias começam?




A PRIMEIRA FOTO POSTADA NÃO SAI DO BLOG, MAS DUAS NOVAS ESTÃO AQUI: A PRIMEIRA UMA ESQUINA TÍPICA DE PARIS, COM UM CAFÉ E TODAS AS LEMBRANÇAS QUE UM CAFÉ NOS TRAZ.

A SEGUNDA FOTO É DE UMA RUA BEM PRÓXIMA AO HOTEL DU LEVANT, NO QUARTIER LATIN, MEDIEVAL COMO TUDO EM TORNO DA NOTRE DAME, QUE REVELA O CHARME DE PARIS E JUSTIFICA SER ELA A CIDADE MAIS VISITADA POR TURISTAS NO MUNDO.


Viagem de férias ao exterior, especialmente quando não são frequentes , têm de ser vistas como um grande acontecimento em nossas vidas; pelo menos na minha vida e na vida da Teresinha.

Sair de casa, sair pelo mundo, saber aonde se vai, onde se está, o que ganhamos em visitar cada lugar, o que aquilo que vemos tem a ver com a nossa vida, são algumas das coisas a serem consideradas.

As considerações - se você der rédeas à imaginação - não têm fim, mas é justamente nesta busca de respostas é que está a meu ver a maior graça das viagens de passeio que por isto mesmo são muito mais atraentes do que as viagens “a trabalho”.

Viagem de trabalho é aquela em que você sai de casa com uma missão definida. Se hospeda em hotéis dedicados a atender gente de negócios (mais ou menos sofisticados), come nos melhores restaurantes da cidade, reúne-se com gente inteligente em muitas empresas, faz anotações, envia e-mails, fala ao telefone muito, por vezes faz palestras ou conferências e depois volta para casa.

Uma vez numa reunião destas nas Bahamas, na ilha de New Providence, depois de três dias do quarto para as salas de reunião, das salas de reunião para restaurantes eu me perguntei qual a grande diferença de fazer aquela reunião em New Iguaçu , por exemplo?

O lugar físico das reuniões de negócio é apenas uma conveniência geográfica. E nisto é que se torna tão diferente das viagens de prazer.

Estou cheio de cuidados para não chamar este tipo de viagens que vamos fazer de viagem turística. Claro que sendo um profissional de marketing a última coisa que poderia fazer seria desvalorizar a viagem turística.

Em 2010 possivelmente teremos alguma coisa como 1 bilhão de pessoas fazendo viagens turísticas por toda a terra. E neste bilhão de pessoas (1/6 da população do mundo) , nós dois e mais a Lúcia e o Alcides, com quem viajamos, estaremos computados.

Vou começar com algumas observações sobre esta ideia de fazer viagens de recreio.Peço a sua paciência.

Até o século XIX quase ninguém saia de suas cidades. Viver dava muito trabalho e não proporcionava às grandes massas as condições necessárias para sair de casa. A maioria aquzsse absoluta das pessoas não podiam deixar de fazer o que faziam para garantir as suas vidas; muito menos sair gastando seu dinheirinho em outros locais...

Não havia, para os empregado nem as folgas dominicais e muito menos algo como férias remuneradas.

O dinheiro que se tinha era o dinheiro que podia ser gasto. Bancos não cuidavam de aplicações de gente sem maiores recursos. Em resumo não havia dinheiro sobrando para coisas supérfluas, principalmente porque diante da ignorância generalizada, ninguém tinha idéia do que poderia ganhar saindo de seus cantos.

Nem sequer havia transporte organizado para se ir de um lugar para o outro.

Trens estavam sendo inventados e o transporte por carruagens puxadas a cavalo tinham de se limitar a distâncias curtas. Os cavalos tinham de ser trocados de tempos em tempos (as mudas) e os passageiros tinham de ser alimentados, os cocheiros trocados. Era mais complicado do que gerenciar uma linha aérea, hoje.

A nossa história do Brasil cheia de referências a navegadores, exploradores, invasores do território português, e as incursões dos bandeirantes nos fazem imaginar o passado como um momento cheio de viagens para todo mundo e a toda hora. E estas viagens da história eram viagens muito grandes da Europa para as Américas, para a África, para a Ásia e para a Oceania.

As viagens no entanto se faziam nos tempos mais antigos, desde da Grécia clássica, por três razões básicas:

1. Ganhar dinheiro ou vantagens que não podiam ser obtidos onde os “viajantes” estavam.

2. Ganhar os corações e mentes dos povos residentes nos lugares que seriam visitados.

3. Ganhar novos espaços para viver e fugir de condições desfavoráveis onde viviam os “viajantes”.

A coisa mais próxima do que pudesse ser chamado de turismo eram as viagens para lugares como Epidauro, na Grécia, para receber tratamento médico de Esculápio e seus seguidores.

Não existia nada que pudesse ser classificado como turismo.


Fazer turismo no sentido aceito por todos hoje de ir a lugares para divertir-se, tomar banhos de mar, praticar esportes locais, tal como subir montanhas, acampar nas matas, comer as especialidades regionais, tudo isto nem poderia ser imaginado como ficção,

Turismo, nas definições oficiais, é algo que implica em viagem de pelo menos 24 horas (e um máximo de seis meses) em que as pessoas saem de suas cidades e a elas voltam. Nas viagens de turismo não se deve ganhar dinheiro. O correto nas viagens de turismo é gastar dinheiro em troca de prazeres e boas lembranças.

O mundo – por absoluta falta de comunicação entre os povos – era até o século XIX pelo menos, um lugar muito mais soturno, fechado e a nosso ver, muito sem muita graça para os seus habitantes.

Algo que para mim guarda uma relação com o mundo animal: quando você quando esquece a maluquice de olhar os animais como gente (coisa que foi promovida pelos desenhos animados com bichos falates) vai perceber que animais só se interessam em preservar as suas vidas.

Bichos não contam com supermercados, nem com assistência médica, nem tribunais ou leis que os garantam ou protejam e eles saibam disto para poderem sobreviver.

Não é sem razão que os bichos sejam tão sérios.

O passarinho que “perca o seu tempo” para dar uma risada acaba sendo comido por outro pássaro maior que dedique o seu tempo a buscar comida da forma mais objetiva.

Cachorros não riem gatos não riem nem ursos, nem baleias, nem tartarugas. – faça a sua lista.

Pense agora em nossos antepassados, nas cidades e casas em que viviam e de onde percebiam que suas vidas estavam sempre por um fio. Isto era bem próximo da vida dos animais... com todo o respeito.

Qualquer epidemia acabava com as cidades, desmontava as famílias, enchia os cemitérios. O que nos tornou muito diferentes dos animais dedicados a sua sobrevivência foram duas invenções humanas que nos trouxeram com orgulho aos dias de hoje: a fé religiosa e todo o respeito pelos mitos e a arte em todas as suas formas.

Acho que somente quando pensamos e criamos fazemos coisas que realmente valem a pena.

Quanta conversa mole antes de começar a escrever sobre a nossa viagem de férias...



Mas, como disse antes, não acho que uma viagem, especialmente quando vamos fazê-la depois de algumas décadas de vida , pode se resumir a ir de um lugar para o outro, tirar fotos e mais fotos, comer refeições em lugares interessantes, hospedar-se em hotéis e depois voltar para casa apenas com estas lembranças (que vão se desvanecendo em nossa memória muito depressa) como o único valor obtido.

A viagem de férias física só se torna completa quando podemos pensar uma porção de coisas sobre ela...

Daí este meu cuidado em classificá-la como viagem de prazer, mais do que viagem de turismo.

A nossa tendência de deixar um rastro de destruição ao longo de nossas viagens de férias.



As últimas férias que tivemos nos aventurando de carro por vários países da Europa foram em 1968! O ano que não acabou, conforme o Zuenir Ventura. Não vou falar sobre 1968, pois só me lembro bem das barricadas nas ruas de Paris, do gás lacrimogêneo, da polícia baixando o cassetete nos estudantes e de nós assistindo aquilo tudo ao vivo a partir do Hotel Du Levant, na Rue de l’Harpe no Quartier Latin.

Embora toda a agitação nas ruas presenciada e vivida por nós , a gente só se dá conta que viveu a história quando aquilo passa a ser considerado história pelos analistas.

Mas a nossa decisão de viajarmos de carro pela Europa há uns dois meses atrás teve uma motivação mais simples: comemorar o aniversário da Teresinha aproveitando os feriados do início de outubro por uns 20 dias.

Combinamos com a Lúcia e com o Alcides fazermos a viagem juntos algo que pode ser um motivo de muita amolação quando não se compartilha sinceramente de idéias semelhantes, consolidadas em mais de 20 anos de amizade, convivência e conversas nos davam a certeza de que a nossa viagem poderia ser muito agradável... e foi.

Disse a Teresinha e a eles que iria escrever este blog como um registro das férias, mas não disse a ninguém o que estava por trás das minhas observações locais. Nem tomei notas, nem fiquei racionalizando o que estávamos fazendo, pois tinha a certeza de que se fizesse isto estaria tornando a viagem de todos muito chata.

Por decisão de todos os carros que alugamos para a nossa viagem foram sempre dirigidos por mim. Não por ser fominha de direção, mas porque ao longo da vida conclui que dirigir carros em qualquer situação nunca me faz ficar tenso.

Uma frase que costumo usar é que um carro é um sofá que se desloca enquanto você (eu) vê coisas interessantíssimas passarem diante de seus olhos.


Nesta viagem desde o primeiro minuto no carro alugado – que não foi um Volvo mas um Citroen Picasso C4 – foi com o uso de um GPS.

Se antes disto eu me divertia em seguir mapas rodoviários que tinham de ser rapidamente interpretados pela Teresinha – que naturalmente se desesperava em seguir os percursos enquanto carro rodava – agora alguém faz isto por nós ligada em vários satélites. Um voz em francês saída de uma caixinha onde a estrada – e as ruas por menores que sejam e cada cidade – aparecem sem deixar margens a dúvidas, se torna cada vez mais confiável.

Hoje, com todo o respeito por quem ficava estressado ao dirigir, qualquer barbeiro chega onde quiser se tiver um GPS instalado no carro.

O que sempre será preciso é você saber aonde você quer ir, e mudar os destinos sempre que lhe pareça uma coisa boa ser feita.

Fazer uma viagem de prazer tendo de observar roteiros e horários precisos fazem a viagem perder a graça e tornar-se numa gincana, feita sem motivo algum.

O justo equilíbrio entre o planejado e o executado é que dá toda a graça às viagens.
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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Mudanças nas postagens: o diário vai ser diferente do que previ. Espero que não fique chato...

CONSEGUI POSTAR AS FOTOS !!!

Aqui estão a Teresinha, a Lúcia e o Alcides Bethlem os alegres companheiros destas férias do Pio.

Depois de voltar e de entrar no ritmo do dia-a-dia estou sentindo que o almanaque de férias poderia ser prejudicado.

Decidi então escrever as postagens e depois transferi-las para cá.

Estou com uma imensa dificuldade de juntar imagens ao blog.

Tenho as fotos, mais de 700, e uma imensa vontade de juntá-las ao texto, mas não acho os caminhos. Não há ícones para fazer estes acréscimos.

Mas vou aprender .

A próxima postagem não poderia ser feita sem fotos.

Logo, por favor aguardem.

Em Lisboa, eu que sou um emérito apreciador de carne comi um filé inesquecível no Império.

Filé a Império é algo que não consigo entender porque alguém não faz aqio também.

Dou os detalhes depois com fotos do prato e redeitas.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Promessas dificeis de cumprir

Estou na Europq ha uma semana tentando manter estes Almanaque qtualizado, mas fiquei perdido diante dos teclados locais.
Prometo - ou ameaco - contar coisas notaveis depois do diq 20 .
No momento ficarei como a coruja da piada...prestando muitq atencao!!!!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Como viajar de férias sem perder o pé no Brasil

"Tem que desligar!!!" será a recomendação de 99% de todos os que lerem este blog, mas devo dizer a vocês que este desligamento iria gerar mais stress do que a ligação sutil.

Trabalhar não é castigo. Se o trabalho não estiver no pacote dos prazeres da vida o melhor é buscar outros trabalhos, outras ocupações.

Portanto você pode ter a certeza de que vou acessar os e-mails, os blogs, as mensagens sempre que puder.

E principalmente vou atualizar este Férias do Pio com assiduidade.

Para enviar informações para mim o melhor caminho será pelo e-mail da repense:

pio.borges@repensecomunicacao.com.br

Para comentar o blog no próprio blog.

E viva a conectividade.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Ninguém tem nada de bom sem sofrer... Os trabalhos antes da viagem e o planejamento para evitar grandes problemas no dia-a-dia.

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Antes de começar a viagem de férias há um período de preparação. Que começa na cabeça e chega logo depois às coisas práticas - como juntar todos os pontos dos vários cartões de crédito e transferi-los para o programa de fidelidade da TAM.

E ter uma grande alegria ao descobrir que havia milhas suficientes para ir à Europa, voar na Europa e voltar ao Brasil sem gastar um centavo com novas passagens!!!

Isto é muito bom, mas tende a criar a sensação de que tudo sai de graça.

E não sai.

Nesta hora é que você valoriza ainda mais o fato de ter bons amigos ... mais.

A Lúcia e o Alcides estavam com projetos para uma viagem pela Europa e poderiam acomodar a sua viagem para o mesmo período em que queríamos fazer a nossa.

Viajar juntos além da oportunidade para grandes papos e curtições dos usos e costumes dos nativos tem como subproduto uma coisa mágica: a divisão por dois dos custos de aluguel de carros.

Mas até se chegar a um roteiro mutuamente acordado e antecipar algumas reservas fica uma fase que curto sem muito detalhe.

Para mim esta fase é o lay-out da viagem. A arte final só vai existir ao final de cada dia e pode alterar em muito o lay-out inicial.

A questão das malas para cada casal e como levá-las conosco nos carros (inclusive com os cuidados de não parecer que somos turistas com mais idade) quando o carro for deixado num recanto de cidade do interior enquanto vamos a algum lugar a pé.

Ter o carro ou nossas malas roubadas é muita sacanagem para cariocas que em princípio sabem muito bem como se virar em qualquer lugar, sem dar mole para marginal "alemão" na língua dos nossos próprios marginais...

Só que, nestes termos mesmo, os "alemães" seremos nós. As quatro pessoas de fora querendo aproveitar o que cada lugar tiver para nos instruir, divertir, menos esta história de sofrer assaltos.

Nossos cuidados:

1. Jamais, ao chegar a qualquer lugar, abrir a mala do carro em praça pública para pegar alguma coisa nas malas de viagem que ali estão, como um casaco, ou deixar um casaco, ou apanhar uma câmara.

Sempre um "vagabundo" na definição global do termo, pode estar olhando e aproveitar-se do carro abandonado para arrombá-lo e nos deixar frustrados.

2. Portanto estes acessos à mala do carro devem ser feitçs ANTES da chegada nos lugares em que pretendamos parar.

3. Se não der para fazer isto SÓ ABRIR A MALA DO CARRO QUANDO ESTACIONARMOS em lugares cuja segurança seja julgada por nós como boa. Em garagens pagas ou pátios de restaurantes bem guardados, etc. etc.

4. Considerar que por mais privilegiada que seja a cidade sempre é bom lembrar do Marechal Floriano Peixoto, talvez o mais invocado presidente que este nosso país já teve: "confiar desconfiando".

5. Ao dizer a um amigo português que desconfiava de todo mundo em todos os lugares e me precavia quanto a isto em todas as minhas viagens ele me disse que em sua vida ele só fora assaltado... em Zurich.

Ora, o noticiário policial existe em todos lugares e não seremos nós que vamos "dar mole" para a marginália local...

6. Atenção agora para uma esperteza do redator deste Almanaque nascida numa visita com a Teresinha ao MoMA em NY há alguns anos: estavamos na fila para comprar nossos ingressos quando uma jovem francesa que estava à frente sacou o seu cartão de "periodiste" e recebeu os seus ingressos sem pagar um tostão.

A tentação surgiu na hora.

De repente voltei aos meus verdes anos como jornalista no Brasil.

Só para lembrar: jornalista era isento de imposto de renda até o governo do Castello Branco, para dizer o mínimo, e havia também benefícios como entrar de graça nos cinemas, teatros e onde mais se quisesse, coisa que jamais fiz na época.

Entrar em museus aqui já era de graça...para todo mundo.

Quando "descobri" esta história de que jornalistas não pagam entrada em museus me senti como um ali baba diante de cofres de tesouros, bastando meu cartão de identificação para o "abre-te sésamo!".

Devo dizer que me sentia "meio picareta" ao fazer isto para visitar museus quando não estava escrevendo matérias sobre o lugar.

Mas este ALMANAQUE DE FÉRIAS é a melhor justificativa para as minhas carteiradas que irão muito além das entradas.

A carteira internacional tem um capa de plastico vermelho em que a palavra PRESS aparece quase gritando.

Se sem carteira nada me detinha imagine minha folga se precisar usar o meu PRESS para entrar am algum lugar...

Não é besteira isto não. Pode ver que os jornalistas que estão cobrindo os aconrtecimentos no mundo estão cada vez mais usando coletes com o PRESS funcionando como salvaguarda contra seguranças e chaves para abrir portas trancadas.

Parece até que vou sair em missão militar. Nada disto, vamos em paz, mas como disse o Jabor hoje na sua coluna no Globo "Si vis pacem parabellum", que todo mundo sabe que significa "Se queres a paz prepara-te para guerra". Uma forma de transformar em lucro tudo o que não seja a guerra durante a viagem, como a questão da segurança nos deslocamentos, explicada acima.

7. Outra coisa interessantíssima para nós são as distâncias rodoviárias destes deslocamentos.

Estive no ano passado com um executivo belga num evento internacional e ele me disse entre risadas que Bruxelas, onde morava, tinha uma característica única: em qualquer direção que você saisse de lá - Norte, Sul, Leste ou Oeste e rodasse 100 quilômetros estaria fora da Bélgica.

Teresópolis fica a 120 quilômetros do Leme, onde moro. Se fosse na Bélgica já seria em outro país.

Só para lembrar a quem não gosta de olhar mapas: a Europa só tem o nome de continente porque quem inventou esta história de continentes foram geógrafos europeus.

A Europa é de fato uma península da Ásia.

Se ilhas tendem a ser menores e só viram continentes quando são muito grandes como a Austrália. E a Oceania abrange todas as outras ilhas da região. Uma península grande ganha o status de continente por lobby de quem distribui os títulos.

Tudo isto para pedir a sua atenção para as distâncias sempre muito curtas na Europa.

Você vai de um canto do norte da Europa para um canto sul rodando menos do que do Rio a Curitiba, ou menos do que do Rio a Brasília.

E por estradas - mesmo as internas fora das grandes vias - muito boas. E tudo que você queira ver estará a menos de 100 quilômetros do lugar em que você estava antes.

Me veio à cabeça um tema politicamente incorreto, mas irresistível nesta altura do texto. Esta história de blitzgrieg, guerra relâmpago que os nazistas fizeram despencando-se da Alemanha e chegando à França com seus regimentos de tanques em disparada.

Com estradas e veículos rápidos a blitz foi até lenta demais. Acho até que o Mourão deslocando suas tropas de Minas para o Rio rodou mais quilômetros em 1964. Com bem menos riscos é claro.

De Paris vamos para a Bélgica e lá vamos nos encontrar com a Lúcia e o Alcides e com o nosso Volvo para cobrir a região a começar por Bruges.

Bruges, como informa uma árvore genealógica da família Borges do Ceará(é assim que ela é conhecida) revela que o primeiro portugues que foi conhecido como Borges foi Gil Eanes, que ganhou este apelido por ter-se destacado num cerco a cidade de Bruges.

Com a notória dificuldade de nossos antepassados dizerem os nomes estrangeiros - a rainha da inglaterra para eles se chama Isabel e não Elizabeth por exemplo - o Bruges virou Borges o que me parece bem melhor.

Bruges é uma cidade linda e genial, e ao que consta tem as melhores moules - uns mariscos negros pequenos que irão exigir um grande esforço para ingerir um a um. Mas o sabor...

Esta fase preparatória da viagem se encerra no dia 30 de setembro em Paris. Hoje cuido de uma pauta básica para entender melhor os lugares visitados.

Quero ouvir das pessoas nas ruas , os chamados "populares" que encontramos em qualquer lugar, o que faz aquele lugar diferente dos demais. Uns tenderão a falar mais, outros nem vão entender a pergunta, mas vou tentar obter boas respostas.

As rivalidades locais são especialidades européias.

Os moradores das áreas que estão rio acima normalmente são vistos como inimigos pelos moradores do rio abaixo. Jusante e Montante são motivos de grandes Rivalidades.

E o pior é que todos têm bons motivos para achar os demais "inimigos" desde na escolha de queijos, vinhos, e no litoral de mariscos, maneiras de cozinhar, tipo de outras comidas, etc.

Esta história de cobrir a viagem vai me obrigar a registrar nomes de hotéis e restaurantes que acabo me esquecendo, como já me esquecia antigamente.

Na semana passada um amigo lembrou do restaurante mais antigo do mundo em Madri em que estive há alguns anos. Nem lembrava que tinha estado lá, deixado a lembrança morrer na memória.

Com esta viagem planejada vi que devia prestar mais atenção a detalhes assim.

O restaurante de Madri é o O Sobrino de Botín inaugurado em 1700 e poucos que jamais fechou as suas portas desde então. O Tour d'Argent em Paris afirma que tem mais de 500 anos, mas há controvérsias...

Este negócio de fechar as portas, passarem-se anos e outro restaurante reabrir com o mesmo nome, etc.

Vou ficar com olhar de lince para perceber estes detalhes e contar aqui.

Descobri também há pouco tempo que as Ardenas (e possivelmente em todos campos de batalha das últimas guerras) está coalhada de bombas não detonadas.

Parece que 10% das bombas militares dão "chabu" como diziam os reclames dos fogos Caramuru - os únicos que não dão chabu - e que portanto é preciso muito cuidado ao mexer na terra de lá.

Por vezes o chabu some na hora em que alguém remexe na bomba velha.

Portanto, bombas lá e nós cá.

Não pretendia antecipar-me nos preconceitos à distância, mas tenho uma obsessão nestas questões de banho e higiene. O verão já vai ter passado e estaremos em pleno outono. Espero que o odor predominante seja o das frutas amadurecidas e não de banhos não tomados da estação anterior...

Detalhe, nós por aqui só adquirirmos esta mania de banho devido à nossa herança indígena. Eles não usavam sabonete, mas tomavam banho o tempo todo. Em compensação os europeus criaram os melhores sabonetes e tomam muito menos banhos.

Isto gera consequências...

Tá já grande demais.

Aguarde os próximos, por favor.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Um desafio por dia. Muitas alegrias também!

Há muito mais oportunidades de prazer quando você não segue os caminhos habituais. A capacidade de identificar novas soluções diante de problemas inesperados pode parecer um grande esforço, mas na verdade é a única oportunidade de alguém possa ter para sentir-se ativo.

Daí termos planejado, Teresinha e eu uma curta viagem de férias de pouco mais de 20 dias quando com a Lúcia e o Alcides vamos dois casais percorrer um roteiro pela Europa, terminando pela Sicília e por Portugal, andando de carro e percorrendo as terras de várias daquelas tribos que originaram tantas coisas.

Vou ser o editor do Almanaque de Ferias do Pio durante este tempo concentrando minhas postagens no que ache que possa interessar a todo mundo e em especial para incentivar a turma com mais de 50 anos a sair de seus casulos e gozarem do mundo.

Nunca o mundo - e vamos centrá-lo na Europa - esteve tão acessável como agora. Em 1968 bem mais jovens como é óbvio Teresinha e eu fizemos viagem semelhante numa Europa agitada, com estudantes dando pedradas e tomando pancadas da polícia em Paris, num mundo ainda dividido entre os comunistas e os direitistas.

Hoje a viagem será tranquila mesmo com ciganos sendo deportados, mussulmanos sendo limitados em seus costumes, desempregados atingirem percentuais nunca vistos, rivalidades étnicas regionais continuarem exacerbadas, a economia estar no limite de perdas ainda maiores, cacete, seremos testemunhas oculares da nova história se refazendo diante de nossos olhos...

Vou postar todos os dias, se possível, mas vou priorizar a viagem, a apuração, a análise (mesmo apressada) do que testemunharmos.

Tenho muito receio de ficar encantado com as minhas observações pois - você precisa saber disto - não me arrependo de nada escrito por mim em momento algum.

Visite o Almanaque do Pio, ou o Liberdade Carioca , dois blogs em que nos últimos anos tenho escrito coisas diversas. Pode ter a certeza de que não lamento coisa alguma ali postada.

Vamos ver agora...